A medicina de precisão (MP) — historicamente referida sob terminologias variadas como medicina personalizada ou estratificada — propõe uma mudança de paradigma ao substituir a abordagem terapêutica universalista (one-size-fits-all) por intervenções fundamentadas no perfil genético e molecular do indivíduo. Contudo, a evolução terminológica e as promessas tecnológicas dos últimos trinta anos geraram uma opacidade conceitual que, segundo evidências recentes, pode estar fomentando um sentimento de desilusão no público leigo. Este cenário caracteriza a “Hesitação na Medicina de Precisão”, um fenômeno análogo à hesitação vacinal, onde o ceticismo em relação aos benefícios clínicos e econômicos, somado a promessas de empoderamento individual não cumpridas, ameaça a confiança epistêmica nas instituições científicas e na prática clínica contemporânea.
A raiz dessa hesitação reside, em parte, na discrepância entre a expectativa gerada pelas versões anteriores da medicina personalizada e a entrega tangível de resultados em saúde. A exploração comercial de tecnologias como dispositivos vestíveis (wearables) e testes genéticos diretos ao consumidor muitas vezes capitaliza sobre a vulnerabilidade e a desconfiança dos pacientes, oferecendo uma ilusão de autonomia que não se traduz necessariamente em eficácia clínica. Quando a ciência não consegue gerenciar as expectativas do público ou falha em comunicar de forma transparente as limitações e incertezas inerentes aos dados genômicos, abre-se espaço para uma resistência que pode minar décadas de esforços coletivos voltados para a inovação médica. A hesitação, portanto, não é apenas uma questão de desinformação, mas uma resposta complexa a um sistema que prioriza a sofisticação tecnológica em detrimento da transparência e do benefício social equitativo.
Para mitigar os riscos da hesitação na MP, é imperativo que a comunidade científica adote uma postura de humildade intelectual e transparência comunicativa. É necessário dissociar o avanço técnico da retórica comercial excessiva, focando na utilidade clínica real e na proteção da privacidade genômica dos pacientes. A reconstrução da confiança exige que a medicina de precisão seja apresentada não como uma panaceia tecnológica, mas como uma ferramenta complementar que requer rigor ético e responsabilidade social. Somente através de uma prática baseada em evidências robustas e em um diálogo aberto com a sociedade será possível converter o ceticismo atual em uma adesão fundamentada, garantindo que os benefícios da revolução ômica sejam acessíveis e compreensíveis para todos os setores da população.
Referência (ABNT):
DEMICHELIS, Alessandro. The Danger of Precision Medicine Hesitancy. Global Philosophy, [s. l.], v. 35, n. 13, p. 1-18, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10516-025-09747-4. Acesso em: 9 abr. 2026.

