Home OpiniãoO Papel da Região Humana Acelerada 123 (HAR123) na Evolução Cerebral e Flexibilidade Cognitiva

O Papel da Região Humana Acelerada 123 (HAR123) na Evolução Cerebral e Flexibilidade Cognitiva

by Redação CPAH

A busca pelas bases genéticas que distinguem o Homo sapiens de seus parentes primatas mais próximos, como os chimpanzés, tem se concentrado em regiões do genoma que sofreram mudanças rápidas após a divergência das linhagens. Entre esses elementos, destacam-se as Regiões Humanas Aceleradas (HARs), que são sequências conservadas em mamíferos, mas que apresentam um acúmulo desproporcional de substituições nucleotídicas na linhagem humana. De acordo com Tan et al. (2025), a região HAR123, localizada no locus cromossômico 17p13.3 — uma área historicamente associada a defeitos neurológicos —, atua como um enhancer (potencializador) neural crítico que promove a formação de células progenitoras neurais (NPCs). Embora essa sequência de 442 nucleotídeos esteja presente em todos os mamíferos, sua rápida evolução nos seres humanos conferiu-lhe a capacidade única de regular uma vasta rede de genes envolvidos na diferenciação neural, sugerindo que modificações sutis em elementos reguladores podem ter sido fundamentais para a expansão do neocórtex humano.

A funcionalidade da HAR123 vai além da mera conservação estrutural, exercendo um papel determinante na neurogênese e na organização celular do sistema nervoso central. Tan et al. (2025) demonstraram que os ortólogos humanos e de chimpanzés da HAR123 exibem diferenças funcionais significativas: enquanto ambos promovem o desenvolvimento neural, apenas a versão humana regula especificamente genes que direcionam a diferenciação celular avançada. Através de modelos experimentais, identificou-se que o gene HIC1 atua como um alvo direto desse enhancer, servindo como um efetor a jusante para impulsionar a proliferação de NPCs. Essa regulação precisa é essencial para manter o equilíbrio homeostático do cérebro, e a interrupção desse mecanismo pode estar na base de diversos transtornos do neurodesenvolvimento que apresentam alterações na arquitetura cortical.

As implicações comportamentais e cognitivas da atividade da HAR123 foram evidenciadas em estudos com modelos animais de nocaute (KO). Segundo Tan et al. (2025), camundongos desprovidos da HAR123 apresentam um déficit específico na flexibilidade cognitiva — a capacidade de adaptar o comportamento em resposta a mudanças nas regras ambientais — além de exibirem uma alteração na proporção entre neurônios e glia em regiões específicas do hipocampo. Essa descoberta é particularmente relevante para a psiquiatria e a neurologia, pois a flexibilidade cognitiva é uma função executiva de alta ordem frequentemente comprometida em condições como o transtorno do espectro autista e a esquizofrenia. Assim, a HAR123 não apenas fornece pistas sobre o nosso passado evolutivo, mas também emerge como um elemento regulador vital para a função cerebral complexa, reforçando a ideia de que a evolução humana foi moldada tanto por novos genes quanto pela reprogramação refinada de antigos interruptores genéticos.

Referência (ABNT):

TAN, Kun et al. An ancient enhancer rapidly evolving in the human lineage promotes neural development and cognitive flexibility. Science Advances, v. 11, n. 33, p. eadt0534, ago. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1126/sciadv.adt0534.

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