O Legado da Adversidade Infantil: Como Esquemas Desadaptativos se Formam na Adolescência

A adolescência é uma fase crítica, marcada por mudanças no desenvolvimento cognitivo, afetivo e social. É também um período de vulnerabilidade intensificada, no qual os jovens são mais suscetíveis a problemas interpessoais e psicológicos, como depressão, ansiedade e comportamento de risco. Um estudo de revisão sistemática e metanálise examinou a associação entre experiências adversas na infância, como abuso e negligência, e o desenvolvimento de Esquemas Desadaptativos Precoces (EMSs), conforme medido em adolescentes.

Os EMSs são definidos como “temas ou padrões amplos e generalizados, compostos por memórias, emoções, cognições e sensações corporais, sobre si mesmo e sobre as relações com os outros, que se desenvolvem na infância ou adolescência, se elaboram ao longo da vida e são disfuncionais em um grau significativo”. A teoria de Young, que fundamenta este estudo, sugere que esses esquemas se formam quando as necessidades emocionais básicas de uma criança, como segurança, amor e autonomia, não são atendidas.

A metanálise, que incluiu 12 estudos, revelou associações significativas entre experiências adversas e o desenvolvimento de esquemas desadaptativos. Foram encontradas associações de moderadas a fortes entre o abuso emocional e os esquemas de Privação Emocional e Subjugação. Da mesma forma, a negligência emocional demonstrou associações significativas com esquemas como Abuso de Desconfiança, Abandono, Isolamento Social e Fracasso.

Curiosamente, a magnitude dessas associações em adolescentes foi semelhante às encontradas em estudos com adultos, o que sugere que os esquemas desadaptativos se formam e se tornam evidentes já na adolescência, e não apenas na vida adulta. O estudo também observa que a adolescência, um período de significativa neuroplasticidade e maleabilidade cerebral, é um momento ideal para intervenções terapêuticas. Abordar esses esquemas precocemente pode mitigar sua natureza perpetuadora e melhorar as trajetórias de saúde mental dos jovens.

Embora a revisão tenha limitações, como o pequeno número de estudos disponíveis e a predominância de dados transversais que impedem o estabelecimento de causalidade, os achados reforçam a teoria de que experiências adversas na infância são um forte preditor de vulnerabilidades cognitivas que sustentam problemas de saúde mental na adolescência.

Referência:

MAY, Tamara et al. Adolescent maladaptive schemas and childhood abuse and neglect: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology & Psychotherapy, v. 29, n. 4, p. 1159-1171, 2022.

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