O sequestro com fins de extorsão econômica representa uma das formas mais severas de violência sociopolítica, desencadeando uma cascata de eventos estressores que afetam não apenas a vítima direta, mas todo o núcleo familiar. A literatura científica aponta que o período de cativeiro é identificado como a fase de maior estresse, apresentando os escores mais elevados de sofrimento geral e sintomas compatíveis com o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). De acordo com Navia e Ossa (2003), a incerteza sobre o desfecho e a privação da liberdade geram uma desorganização psicológica profunda, onde tanto o sequestrado quanto seus familiares manifestam níveis similares de angústia. Esse fenômeno demonstra que o sequestro é um trauma compartilhado, no qual a interdependência emocional faz com que a sintomatologia psicopatológica se distribua de forma equitativa entre os membros da família, independentemente de quem sofreu a coerção física direta.
A recuperação após a libertação não é um processo linear e está intrinsecamente ligada à funcionalidade familiar e às estratégias de enfrentamento (coping) adotadas. Estudos longitudinais indicam que não há diferenças significativas na intensidade do sofrimento psicológico entre diferentes períodos após a soltura (de 2 a 15 meses), sugerindo que o trauma possui uma cronificação que demanda intervenções sustentadas. Segundo Navia e Ossa (2003), o funcionamento familiar — que inclui a comunicação, a clareza de papéis e a resposta afetiva — atua como um mediador crítico no ajuste psicológico dos sobreviventes. Famílias que mantêm uma estrutura coesa e utilizam estratégias de enfrentamento focadas na resolução de problemas e no suporte social tendem a apresentar melhores índices de reajustamento, mitigando a severidade dos sintomas de depressão e ansiedade que frequentemente persistem após o evento.
A análise da saúde mental de vítimas de sequestro revela que a sintomatologia somática e a reatividade ao estresse são indicadores persistentes do impacto traumático. O diagnóstico de TEPT nestas populações é frequentemente acompanhado por comorbidades que afetam a qualidade de vida e a capacidade de reintegração social. Conforme discutido por Navia e Ossa (2003), o processo de readaptação exige que o sistema familiar processe a experiência de submissão e recupere o sentido de autonomia perdido. O suporte psicoterapêutico deve, portanto, transcender o indivíduo, abordando as dinâmicas relacionais e fortalecendo os mecanismos de resiliência coletiva. Somente através de uma compreensão multidimensional do trauma do sequestro será possível oferecer caminhos eficazes para a superação desse evento devastador e para a restauração da homeostase psíquica das vítimas e seus entes queridos.
Referência (ABNT):
NAVIA, Carmen Elvira; OSSA, Marcela. Family Functioning, Coping, and Psychological Adjustment in Victims and Their Families Following Kidnapping. Journal of Traumatic Stress, v. 16, n. 1, p. 107-112, fev. 2003. Disponível em: https://doi.org/10.1023/A:1022026815349.

