A hemocromatose hereditária representa um grupo de desordens genéticas caracterizadas pela falha sistêmica na regulação da hepcidina, o hormônio derivado do fígado essencial para o controle dos níveis de ferro no organismo. De acordo com Olynyk e Ramm (2022), a patologia manifesta-se predominantemente quando os mecanismos de feedback que deveriam elevar a hepcidina em resposta ao aumento dos estoques de ferro falham, resultando em uma absorção intestinal excessiva e liberação descontrolada de ferro na circulação via ferroportina. Embora a mutação homozigótica HFE p.C282Y seja a causa em cerca de 95% dos casos, a expressão clínica é notavelmente heterogênea, sendo influenciada por fatores como sexo, idade e presença de comorbidades.
A progressão da doença para estados graves, como cirrose hepática e carcinoma hepatocelular, está intimamente ligada aos níveis de ferritina sérica. Olynyk e Ramm (2022) destacam que valores de ferritina acima de 1000 µg/L são fortes preditores de fibrose avançada. Além disso, a artrite surge como uma manifestação clínica comum e debilitante, muitas vezes precedendo o diagnóstico de disfunção orgânica grave. O manejo clínico atual foca na detecção precoce e na utilização da flebotomia terapêutica para prevenir a sobrecarga tecidual, sublinhando que a triagem genômica e bioquímica deve ser interpretada com cautela devido à penetrância incompleta de certas mutações e à influência de fatores ambientais na apresentação do fenótipo.
Referência (ABNT):
OLYNYK, John K.; RAMM, Grant A. Hemochromatosis. The New England Journal of Medicine, v. 387, n. 23, p. 2159-2170, dez. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMra2119758.

