O narcisismo patológico é uma condição grave de saúde mental caracterizada por significativas perturbações no funcionamento interpessoal. Indivíduos afetados frequentemente manifestam comportamentos agressivos, dominadores, frios e coercitivos, que provocam intensas reações negativas nos outros. O estudo de Day, Townsend e Grenyer (2022) buscou analisar os padrões relacionais momento-a-momento que emergem nas relações íntimas e de longo prazo entre parceiros/familiares (denominados “participantes”) e um indivíduo com narcisismo patológico (denominado “parente”). A pesquisa utilizou o método do Tema de Conflito Central da Relação (CCRT-LU), no qual os participantes forneceram narrativas verbais de interações específicas.
Padrões de Interação e o CCRT
A análise de 133 narrativas de relacionamento revelou uma diferença notável na dinâmica relacional. Embora os desejos (Wishes – W) identificados pelos participantes (por exemplo, por amor, apoio) fossem consistentes nas narrativas envolvendo o parente com narcisismo patológico e as que envolviam não-parentes, houve uma incidência significativamente maior de desarmonia e menor de harmonia nas relações com o parente. Narrativas com não-parentes tipicamente continham interações harmoniosas e desarmoniosas aproximadamente equivalentes, onde os conflitos eram resolvidos satisfatoriamente. Por outro lado, as interações com o parente patologicamente narcisista apresentaram um nível significativamente mais baixo de harmonia (Média = 4.5, DP = 3.3) e elevado de desarmonia (Média = 18.2, DP = 6.3).
A desarmonia descrita nas interações com o parente incluía:
Resposta do Outro (RO – Response of Other): O parente exibia comportamentos de rejeição, subjugação, ataque, aborrecimento e ser não confiável. * Resposta do Próprio (RS – Response of Self): Os participantes respondiam com comportamentos de rejeição e retraimento (withdrawing). Esses resultados demonstram ciclos de disfunção interpessoal, onde as narrativas com os parentes envolviam conflitos crescentes, resultando em um maior distanciamento e na não satisfação dos desejos relacionais. Curiosamente, a prevalência de desejos por amor e apoio sugere que os participantes estavam particularmente motivados por esses objetivos interpessoais, o que pode indicar uma dependência subjacente, tornando-os vulneráveis à exploração interpessoal.
Estilos de Relacionamento e Ativação do Sistema de Apego
Além dos padrões de interação, o estudo investigou os estilos de relacionamento usando o Questionário de Relacionamento (RQ) em três contextos: “em geral”, “com o parente” e a avaliação do estilo do “parente”.
Houve uma notável desativação do sistema de apego dos participantes ao interagir com o parente com narcisismo patológico. Especificamente, quando interagiam com o parente, os participantes relataram um estilo de relacionamento significativamente menos seguro e mais evitativo (dismissing) em comparação com o estilo “em geral”. O estilo evitativo (“dismissing”) foi o mais endossado pelos participantes nessa interação específica (Média = 75.2, DP = 39.1).
De forma coerente, os indivíduos com narcisismo patológico foram similarmente avaliados pelos participantes como predominantemente de estilo evitativo (Média = 54.3, DP = 43.3). A convergência para o estilo evitativo (dismissing) na díade sugere que os participantes podem começar a espelhar o estilo relacional do parente como um mecanismo defensivo para preservar a integridade do próprio funcionamento e minimizar os afetos intensos e desestabilizadores associados a tais relacionamentos.
Implicações Clínicas
As descobertas sublinham a importância de compreender como o ambiente reage ao indivíduo com narcisismo patológico, sustentando o ciclo de disfunção. Em um contexto terapêutico, esses resultados sugerem que pacientes com narcisismo patológico podem replicar padrões de desarmonia interpessoal, incluindo antagonismo e descarte em relação ao terapeuta. A implicação crucial para o tratamento é o risco de o terapeuta, em sua contratransferência, se retrair ou se envolver em comportamentos disfuncionais recíprocos de retraimento, rejeição ou descarte mútuo. A recomendação é que os terapeutas monitorem e gerenciem esses temas relacionais, explorando a atmosfera de desengajamento co-criada para facilitar o insight através do processo de ruptura e reparação.
Em última análise, as evidências apontam para a “obstrução do amor” inerente ao narcisismo patológico, onde a necessidade desesperada de estabilizar a frágil autoestima através de relacionamentos leva a um ciclo repetitivo de rejeição, resultando no oposto do que é desejado: o parceiro ou familiar torna-se mais rejeitador, retraído e evitativo.
Referência:
DAY, N. J. S.; TOWNSEND, M. L.; GRENYER, B. F. S. Living with pathological narcissism: core conflictual relational themes within intimate relationships. BMC Psychiatry, v. 22, n. 30, 2022.

