A evolução da ciência nutricional caminha para a superação das diretrizes generalistas, baseadas em médias populacionais, em direção à nutrição de precisão. Este novo paradigma reconhece que a variabilidade genética individual — manifestada por meio de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs), variações no número de cópias (CNVs) e outras variantes — modula de forma significativa a resposta biológica aos nutrientes e padrões alimentares. A nutrigenética, especificamente, foca em como o genótipo de um indivíduo influencia sua reação a dietas específicas, alterando o risco de doenças crônicas não transmissíveis, como a obesidade, o diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. A integração de tecnologias de alto rendimento permite hoje que a informação genética seja utilizada para prever a eficácia de intervenções nutricionais, transformando a nutrição de uma ciência reativa em uma estratégia preventiva personalizada.
A implementação da nutrição personalizada é estruturada em três níveis hierárquicos de complexidade. O primeiro nível baseia-se na nutrição convencional, fundamentada em diretrizes para grupos populacionais segregados por idade, sexo e fatores sociais. O segundo nível, a nutrição individualizada, incorpora informações fenotípicas detalhadas, incluindo dados antropométricos, marcadores bioquímicos e níveis de atividade física. O terceiro e mais avançado nível é a nutrição direcionada pelo genótipo, que utiliza variações raras ou comuns do DNA para refinar as recomendações dietéticas. O objetivo máximo desse sistema é garantir que o aconselhamento nutricional não apenas atenda às necessidades metabólicas basais, mas também mitigue riscos genéticos específicos, otimizando a saúde e prevenindo a manifestação de fenótipos patológicos em indivíduos predispostos.
Contudo, a aplicação prática da nutrigenética exige rigor metodológico e ético, conforme preconizado pela Sociedade Internacional de Nutrigenética/Nutrigenômica. A complexidade das interações gene-dieta é vasta, e a ciência ainda trabalha para validar plenamente o uso de escores de risco genético na prática clínica rotineira. É imperativo que os profissionais da saúde compreendam que a genética não atua isoladamente, mas em um contínuo com o fenótipo e o ambiente. Portanto, a nutrição de precisão não deve ser vista como uma solução isolada, mas como uma ferramenta poderosa que, quando integrada ao histórico clínico e ao estilo de vida do paciente, permite um manejo dietético mais assertivo, eficaz e verdadeiramente individualizado.
Referência (ABNT):
FERGUSON, Lynnette R. et al. Guide and Position of the International Society of Nutrigenetics/Nutrigenomics on Personalised Nutrition: Part 1 – Fields of Precision Nutrition. Journal of Nutrigenetics and Nutrigenomics, [s. l.], v. 9, n. 1, p. 12-27, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1159/000445350. Acesso em: 9 abr. 2026.

