Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós PhD em Neurociências
Premissa Inicial: Neurofuncionalidade vs. Adaptação Ortopédica
Comportamentos aparentemente banais, como apoiar a cabeça com a mão em posição que lembra a garra de um dinossauro, podem revelar arquiteturas mentais e estruturais profundamente distintas. No universo clínico, rotular sem contextualizar é erro heurístico recorrente. Esta manifestação postural, quando observada tanto em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) quanto na Síndrome de Ehlers-Danlos (SED), demanda análise diferencial rigorosa: um comportamento idêntico não implica funcionalidade equivalente.
Autismo: Estereotipia como Regulação Neurossensorial
No TEA, a “mão de dinossauro” tende a ser estereotipada, ritualística, persistente e resistente à variação contextual. Neurofuncionalmente, há envolvimento das vias talamocorticais e disfunção no córtex somatossensorial, além de hiperatividade límbica (particularmente da ínsula e da amígdala), que contribui para padrões sensoriais atípicos. O ato de se apoiar de forma repetitiva e precisa se constitui numa tentativa de autoregulação diante da instabilidade perceptiva e da sobrecarga ambiental. Trata-se de um marcador de coerência interna, não de função ortopédica.
Ehlers-Danlos: Adaptação Proprioceptiva à Instabilidade Articular
No SED, uma síndrome do tecido conjuntivo, tal comportamento é menos ritual e mais consequência biomecânica. A hipermobilidade articular, a dor crônica e o déficit proprioceptivo frequentemente levam o indivíduo a buscar posições de suporte e alívio. Aqui, a mesma postura é uma resposta adaptativa somática, dependente do desconforto físico e alterada conforme a condição clínica. Não há rigidez no padrão, nem reforço comportamental. A mão que apoia é uma necessidade articular, não um código sensorial.
Causalidade e Semântica Clínica: Quando o Sinal Engana
Confundir as duas etiologias pode levar a erros diagnósticos graves. No TEA, desconsiderar o valor simbólico ou neurológico do gesto é negligenciar uma janela de autoregulação sensorial. Já em Ehlers-Danlos, patologizar um gesto adaptativo como ritual obsessivo é psiquiatrizar o que é ortopédico.
Essa distinção exige mais que observação: requer neuroimagem funcional, estudo de neurotransmissores (como a dopamina estriatal envolvida em repetição no autismo) e avaliação biomecânica postural. O comportamento humano não pode ser interpretado sem entender sua causa – seja ela sináptica ou colagenosa.
Conclusão: A Etiologia como Chave Hermenêutica
Em tempos de diagnósticos rápidos e protocolos automatizados, urge resgatar a complexidade fenomenológica da clínica. A “mão de dinossauro” é um símbolo: de dor ou de neurodivergência, de adaptação ou de ritual. Confundi-la é incorrer na superficialidade diagnóstica. O comportamento é um vetor, não um ponto. O significado, como em qualquer leitura da mente, depende do trajeto, não da forma.
Referências
• PINTO, James Yhon Robles; RODRIGUES, Fabiano de Abreu Agrela. Perspectivas de la clínica de salud del sistema familiar. Cognitiones, v. 6, n. 1, p. 130–144, 2023. DOI: 10.38087/2595.8801.182
• GORIOUNOVA, Natalia A.; MANSVELDER, Huibert D. Genes, Cells and Brain Areas of Intelligence. Frontiers in Human Neuroscience, v.13, p.44, 2019. DOI: 10.3389/fnhum.2019.00044