A medicina cardiovascular contemporânea enfrenta o desafio constante de aprimorar a precisão na estratificação de risco para a prevenção primária. Tradicionalmente, as diretrizes europeias e americanas fundamentam-se em modelos clínicos como o SCORE2, que utilizam variáveis estabelecidas — idade, sexo, níveis de colesterol, pressão arterial e tabagismo — para estimar a probabilidade de um evento cardiovascular em 10 anos. Contudo, um estudo recente publicado no European Heart Journal propõe uma mudança de paradigma: a integração do Escore de Risco Poligênico (PRS) como um fator multiplicador para refinar essas estimativas.
A Estabilidade do Fator Genético
A inovação central do estudo de Li et al. (2024) reside na demonstração de que o risco genético relativo de um indivíduo é constante, independentemente de seus fatores de risco clínicos. Ao analisar dados de mais de 432.000 participantes do UK Biobank, os pesquisadores observaram que as razões de chances (OR) — denominadas Fator-PRS — permaneceram estáveis em diferentes estratos de risco clínico.
Esta descoberta é fundamental porque estabelece que o risco absoluto (determinado clinicamente pelo SCORE2) e o risco relativo genético (determinado pelo PRS) fornecem informações independentes e complementares. Como não foram encontradas interações significativas entre esses dois componentes, eles podem ser combinados de forma simplificada através de um modelo multiplicativo: Risco Total = SCORE2 x Fator-PRS.
Reclassificação de Risco e Impacto Clínico
A aplicação prática deste modelo tem o potencial de transformar a gestão de pacientes classificados inicialmente como de “risco intermediário”. No estudo, o uso do Fator-PRS permitiu reclassificar cerca de 9,55% desses indivíduos para a categoria de alto risco. O impacto clínico dessa mudança é substancial: os indivíduos reclassificados apresentaram uma incidência de eventos cardiovasculares (8,08%) aproximadamente duas vezes maior do que aqueles que permaneceram na categoria intermediária (4,08%).
Esta precisão adicional é crucial para a tomada de decisão terapêutica, permitindo que intervenções preventivas, como a introdução de estatinas ou mudanças intensivas no estilo de vida, sejam direcionadas de forma mais assertiva àqueles que possuem uma predisposição genética elevada. Além disso, como o perfil genético é estável ao longo da vida, uma única avaliação do PRS poderia servir como um multiplicador vitalício para os escores clínicos que mudam com a idade.
Referência (ABNT):
LI, Ling et al. Integration of a polygenic score into guideline-recommended prediction of cardiovascular disease. European Heart Journal, v. 45, n. 21, p. 1843-1852, jun. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae048.

