Início OpiniãoGaslighting Cultural: Uma Análise Estrutural do Abuso Psicológico

Gaslighting Cultural: Uma Análise Estrutural do Abuso Psicológico

por Redação CPAH

O termo gaslighting é popularmente entendido como uma forma de manipulação mental e abuso emocional em relações interpessoais, na qual o agressor faz a vítima duvidar de sua própria sanidade e percepção da realidade. O artigo de Elena Ruíz, “Cultural Gaslighting,” argumenta que essa compreensão é limitada e falha em reconhecer o fenômeno como um problema sistêmico e estrutural. A autora desenvolve o conceito de gaslighting cultural para descrever os mecanismos sociais e históricos que criam ambientes mentais abusivos para mulheres de cor e mulheres indígenas em sociedades colonizadoras, como as da América do Norte.

Segundo a autora, o gaslighting cultural é uma tática de violência que visa curar a resistência de culturas colonizadas, consolidando assim o projeto colonial de desapropriação de terras e genocídio cultural. Ruíz argumenta que a popularização da visão interpessoal do gaslighting não é acidental, mas serve como uma “distração conceitual” que desvia a atenção das opressões estruturais e do racismo sistêmico que continuam a sustentar o projeto colonial.

Um exemplo dessa dinâmica é o gaslighting médico. Embora a versão popular defina o gaslighting médico como um fenômeno interpessoal em que a experiência de um paciente é desvalorizada por um profissional de saúde, a autora argumenta que essa visão ignora a distribuição desigual e intencional de danos à saúde entre populações. Historicamente, o sistema médico nos EUA tem uma história de exploração e desvalorização das mulheres negras. Ruíz menciona o caso de J. Marion Sims, considerado o “pai da ginecologia moderna,” que realizava experimentos cirúrgicos em mulheres escravizadas, descartando sua dor com base em mitos raciais. A autora destaca que essa desvalorização da dor e das experiências das mulheres negras continua até hoje.

A autora também introduz o conceito de gaslighting racial, desenvolvido por Angelique Davis e Rose Ernst, para descrever um processo político e social que perpetua a supremacia branca através da patologização daqueles que resistem. Esse processo não é acidental, mas uma função iterativa para cooptar a resistência. O gaslighting cultural, portanto, atua para legitimar a presença de colonos em terras roubadas, apresentando-os como os “povos originais” e criando uma ilusão que apaga as realidades não-colonizadoras.

O estudo conclui que a noção de gaslighting como um abuso meramente psicológico e interpessoal falha em capturar sua dimensão estrutural e sua função em manter as desigualdades sociais e a desapropriação contínua. A visão anticolonial apresentada no artigo mostra que a violência psicológica não é apenas um fenômeno individual, mas uma manifestação de sistemas mais amplos de opressão.

Referência:

RUÍZ, Elena. Cultural Gaslighting. Hypatia, v. 35, n. 4, p. 855-881, 2020.

Alguns destaques

Deixe um comentário

12 + 11 =

Translate »