O fenômeno do gaslighting, tradicionalmente analisado pela psicologia como uma tática interpessoal de manipulação baseada no engano e na negação da realidade, assume proporções sistêmicas quando observado sob a ótica da teoria política e da epistemologia social. De acordo com Ruíz (2020), o conceito de “gaslighting cultural” descreve como as sociedades coloniais de povoamento (settler colonial societies) utilizam infraestruturas sociais e históricas para produzir ambientes mentais abusivos. Diferente da abordagem estocástica, que encara o abuso como um evento aleatório entre indivíduos, o gaslighting cultural é compreendido como uma estratégia de distribuição de poder que visa automatizar desigualdades sociais, afetando desproporcionalmente mulheres de cor e mulheres indígenas. Ao mobilizar narrativas coloniais e estereótipos sistêmicos, o agressor não apenas nega a realidade da vítima, mas encontra suporte em uma estrutura social que já pré-desqualifica o testemunho dessas mulheres, tornando a manipulação uma extensão da violência estrutural.
A eficácia do gaslighting cultural reside na sua capacidade de sequestrar os recursos epistemológicos da vítima, forçando-a a interpretar sua própria opressão através dos marcos conceituais do opressor. Segundo Ruíz (2020), essa forma de abuso opera através de “estratégias de design de distribuição”, onde o ganho socioeconômico e a credibilidade são continuamente desviados para as populações colonizadoras em detrimento das comunidades marginalizadas. Em contextos institucionais, como nos sistemas de saúde e justiça, o gaslighting cultural manifesta-se na patologização da resistência das mulheres indígenas e de cor. Quando essas mulheres denunciam injustiças, suas percepções são frequentemente rotuladas como “irracionais” ou “emocionais”, um processo que Ruíz (2020) identifica como uma forma de silenciamento que reproduz a precariedade da saúde pública e as desvantagens de mortalidade nessas populações, consolidando um ambiente de injustiça epistêmica crônica.
Para além do dano individual, o gaslighting cultural funciona como um mecanismo de manutenção do status quo colonial, ao apagar as trajetórias históricas de resistência e substituir a realidade vivida por versões higienizadas da história. Conforme discutido por Ruíz (2020), a descolonização do pensamento exige o reconhecimento de que os ambientes mentais abusivos são arquitetados por mecanismos de poder social que precedem e sustentam os abusos interpessoais. É imperativo que a análise da violência de gênero integre uma compreensão das estruturas coloniais, uma vez que a autonomia mental e a integridade das mulheres de cor estão intrinsecamente ligadas à desarticulação dessas infraestruturas de opressão. Em última análise, combater o gaslighting cultural requer a validação de sistemas de conhecimento indígenas e de cor, restaurando a autoridade narrativa e a sanidade política daqueles cujas realidades foram sistematicamente negadas pelas estruturas de poder dominantes.
Referência (ABNT):
RUÍZ, Elena. Cultural Gaslighting. Hypatia, v. 35, n. 4, p. 1-27, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1017/hyp.2020.33.