A saúde mental de adolescentes é um desafio global de saúde pública, com uma prevalência crescente de transtornos mentais em todo o mundo, especialmente entre jovens de 10 a 19 anos, cujas necessidades permanecem subdiagnosticadas e subtratadas. Em países de baixa e média renda, como a China, a situação é ainda mais crítica, com 14,8% dos adolescentes enfrentando problemas de saúde mental, predominantemente depressão e ansiedade. Dados recentes indicam que 30% dos pacientes com depressão têm menos de 18 anos, sendo metade deles estudantes. No contexto chinês rural, a situação é agravada pela migração parental, que resulta em milhões de estudantes sem cuidado parental direto, e pela falta de recursos, profissionais e priorização da saúde mental nas escolas.
Diante dessas barreiras para intervenções tradicionais, como terapia cognitivo-comportamental e farmacoterapia, a inteligência artificial (IA) surge como uma força transformadora. Chatbots de IA, programas inteligentes que simulam conversas humanas, são reconhecidos como uma solução promissora para intervenções em saúde mental. Eles demonstram capacidades de compreensão e geração de linguagem natural, com desempenho comparável ou superior à expertise humana em diagnóstico médico, comunicação e práticas terapêuticas. Oferecendo suporte 24 horas por dia, os chatbots de IA proporcionam uma solução custo-eficaz para a escassez de recursos de saúde mental em áreas rurais, potencializando o bem-estar psicológico dos estudantes.
Este estudo, utilizando o modelo UTAUT2 (Unified Theory of Acceptance and Use of Technology 2), buscou examinar os fatores que influenciam a adoção de chatbots de IA para educação em saúde mental entre estudantes secundaristas rurais chineses. Os resultados da pesquisa, que envolveu 317 adolescentes rurais, indicaram que a Expectativa de Desempenho (PE), a Expectativa de Esforço (EE), a Influência Social (SI) e o Antropomorfismo Percebido (PA) correlacionaram-se positivamente com a Intenção Comportamental (BI) de adoção dos chatbots. Por outro lado, o Risco Percebido (PR) correlacionou-se negativamente, enquanto a Motivação Hedônica (HM) não apresentou efeito significativo.
A Expectativa de Desempenho, que reflete a percepção dos estudantes sobre a eficácia dos chatbots de IA em melhorar sua saúde mental, foi o preditor mais forte da intenção de adoção. A Expectativa de Esforço, referente à facilidade de uso do chatbot, também se mostrou crucial, pois sistemas complexos podem levar à descontinuação do uso. A Influência Social, que engloba o impacto de pares, pais e professores, demonstrou ser um fator crítico em ambientes rurais, sugerindo a importância de promover o uso de chatbots em ambientes escolares e comunitários.
O Antropomorfismo Percebido, ou seja, a atribuição de características humanas aos chatbots, também influenciou positivamente a intenção de uso. Recursos como expressões faciais, tom de voz humano e respostas emocionalmente ressonantes podem aumentar o engajamento emocional dos adolescentes, reduzindo a distância psicológica e promovendo a confiança, o que é vital para a autoexposição e o uso contínuo em contextos terapêuticos. Em contraste, o Risco Percebido, especialmente as preocupações com a privacidade dos dados, demonstrou uma associação negativa com a intenção comportamental. Do ponto de vista neuropsicológico, o risco percebido pode perturbar o desenvolvimento emocional dos adolescentes, hiperativando regiões cerebrais associadas ao processamento de ameaças, o que pode prejudicar os sistemas de controle da regulação emocional e levar à ansiedade e retirada das ferramentas de IA.
Curiosamente, a Motivação Hedônica, ou seja, o prazer e a diversão ao usar a tecnologia, não teve um impacto significativo na intenção de uso. Uma possível explicação é que, como nativos digitais, os estudantes já esperam propriedades hedônicas inerentes aos sistemas inteligentes, priorizando a utilidade terapêutica prática sobre o valor recreativo. Quanto aos fatores moderadores, o nível de escolaridade influenciou a relação entre o Risco Percebido e a Intenção Comportamental, com estudantes do 9º e 11º anos demonstrando maior necessidade de apoio à saúde mental devido a pressões acadêmicas críticas. No entanto, o gênero não apresentou efeito moderador significativo.
As recomendações práticas derivadas deste estudo incluem aprimorar o desempenho técnico dos chatbots para identificar precocemente sinais de transtornos mentais e oferecer intervenções direcionadas, como treinamento de relaxamento e gerenciamento de tempo. Além disso, é crucial simplificar a interface do usuário, fornecer manuais gráficos e vídeos instrutivos, e integrar módulos de reconhecimento de dialetos para se alinhar aos hábitos linguísticos dos adolescentes rurais. Para aumentar a influência social, as escolas e os departamentos de educação devem promover a adoção de chatbots por meio de workshops de treinamento para professores e programas de conscientização para pais. A implementação de mecanismos robustos de proteção de dados e opções de anonimato é igualmente fundamental para mitigar as preocupações com a privacidade e o estigma.
Em resumo, a adoção de chatbots de IA para saúde mental em ambientes rurais é influenciada por uma complexa interação de fatores. O estudo destaca a necessidade de desenvolver soluções tecnologicamente eficientes, fáceis de usar, socialmente apoiadas e eticamente responsáveis para atender às necessidades urgentes de saúde mental de adolescentes em áreas rurais.
Referência:
Li, S., Liu, L., Wang, Y., & Deng, X. (2025). Determinants of rural middle school students’ adoption of AI chatbots for mental health.
Frontiers in Public Health, 13, 1619535. https://doi.org/10.3389/fpubh.2025.1619535