A hipertensão arterial sistêmica permanece como o principal fator de risco modificável para doenças cardiovasculares e mortalidade global. Apesar da vasta disponibilidade de classes farmacológicas, a eficácia terapêutica é frequentemente limitada pela variabilidade interindividual, onde uma parcela significativa de pacientes não atinge os níveis pressóricos alvo. A farmacogenômica emerge como uma disciplina crucial para elucidar como variantes genéticas — especificamente polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) — alteram tanto a farmacocinética quanto a farmacodinâmica dos anti-hipertensivos. Variantes em genes que codificam componentes do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA), como o gene da enzima conversora de angiotensina (ACE), receptores de angiotensina II (AGTR1) e transportadores de sódio, são determinantes na modulação da resposta a inibidores da ECA, bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRAs) e diuréticos tiazídicos.
A arquitetura genética da resposta aos anti-hipertensivos envolve loci que regulam não apenas o alvo do fármaco, mas também seu metabolismo sistêmico. Por exemplo, polimorfismos nos genes do complexo citocromo P450, como CYP3A4 e CYP3A5, desempenham um papel vital no metabolismo de bloqueadores dos canais de cálcio (BCC), como a amlodipina. Indivíduos portadores de alelos que conferem uma metabolização lenta ou rápida podem apresentar, respectivamente, maior risco de efeitos adversos ou falha terapêutica. Além disso, variantes nos genes ADRB1 e ADRB2, que codificam receptores beta-adrenérgicos, influenciam a eficácia dos beta-bloqueadores na redução da frequência cardíaca e da pressão arterial. Essa complexa rede de interações genéticas ressalta que a prescrição baseada no fenótipo médio populacional ignora a singularidade biológica que dita o sucesso ou o fracasso do tratamento.
A integração da farmacogenômica na prática clínica cardiovascular oferece o potencial de transformar o paradigma do “tentativa e erro” em uma medicina de precisão baseada em evidências moleculares. No entanto, a implementação rotineira desses biomarcadores genéticos enfrenta desafios, incluindo a necessidade de validação em coortes multiétnicas e a simplificação dos testes laboratoriais para o ambiente de atenção primária. A transição para um modelo onde o perfil genotípico do paciente orienta a escolha da classe inicial de anti-hipertensivos promete não apenas melhorar as taxas de controle pressórico, mas também reduzir o tempo para o alcance da meta terapêutica e minimizar os danos causados por reações adversas. Ao consolidar o conhecimento sobre os polimorfismos que modulam a hemodinâmica, a cardiologia moderna caminha para uma abordagem mais segura, eficaz e verdadeiramente personalizada.
Referência (ABNT):
EL CHEIKH, Jana et al. Genetic polymorphisms influencing antihypertensive drug responses. British Journal of Pharmacology, [s. l.], v. 181, n. 1, p. 1-25, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1111/bph.17414. Acesso em: 9 abr. 2026.

