A integração da Inteligência Artificial (IA) na produção de textos acadêmicos tem levantado discussões importantes sobre a autoria, o estilo e a enunciação, especialmente considerando ferramentas como o ChatGPT. Este artigo de opinião busca explorar as implicações do uso da IA nesse contexto, à luz da teoria do Círculo de Bakhtin, e propor reflexões sobre a originalidade e a responsabilidade na criação acadêmica na era digital.
A hipótese central é que o ChatGPT atua como um coautor implícito, estabelecendo uma nova forma de interação verbal caracterizada por uma alteridade assimétrica. A metodologia qualitativa, baseada na análise discursiva bakhtiniana de um artigo gerado por IA a partir de comandos definidos, revelou que os textos produzidos com o auxílio do ChatGPT participam de uma cadeia discursiva, incorporando entonações simuladas e estilos híbridos. Nesses textos, o autor humano desempenha um papel crucial ao ajustar e orientar o discurso conforme seus propósitos.
A autoria, nesse cenário, emerge como uma coconstrução, o que demanda novas problematizações éticas e epistemológicas sobre a originalidade e a responsabilidade na criação acadêmica. O estudo contribui para uma compreensão crítica do papel da IA na educação, defendendo uma perspectiva dialógica sobre a linguagem e a produção de conhecimento na era digital.
Bakhtin (2011) postula que o enunciado é uma unidade concreta da comunicação verbal, intrinsecamente ligada a um interlocutor, um contexto e uma entonação que reflete a posição valorativa do autor. Na interação entre humanos e IA, a IA, embora não possua consciência ou intencionalidade própria, age como um “outro” programado para responder com base em dados e padrões. A responsividade da IA, ainda que limitada pela sua programação, insere-se na cadeia discursiva e influencia enunciados futuros. O caráter dialógico do enunciado é preservado, pois a IA colabora na construção de significados com o humano, porém de forma assimétrica, uma vez que as respostas da IA se baseiam em bancos de dados e parâmetros que refletem discursos pré-existentes, enquanto o humano contribui com subjetividade e historicidade.
A entonação, para Bakhtin (2011), expressa o tom emotivo-volitivo do enunciado e a posição valorativa do falante. Em textos gerados por IA, a entonação é simulada e reflete padrões pré-estabelecidos em sua programação e nos dados de treinamento. Isso pode resultar em enunciados academicamente coerentes, mas desprovidos de uma postura genuinamente humana, o que pode comprometer a autenticidade do diálogo acadêmico.
Quanto ao estilo, Bakhtin (2011) o relaciona aos gêneros discursivos e às condições sociais e históricas da interação verbal. O estilo de um artigo acadêmico, por exemplo, caracteriza-se pela argumentação lógica, uso de citações e referências, e um tom formal. Textos produzidos por IA podem mimetizar essas normas estilísticas, mas correm o risco de padronização excessiva, suprimindo a criatividade e originalidade tipicamente humanas. Além disso, a falta de marcas autorais específicas pode gerar despersonalização.
A autoria, no viés bakhtiniano, transcende a mera criação de uma obra; ela implica a capacidade do autor de organizar e dar forma a múltiplos discursos, atribuindo-lhes uma unidade de sentido. O autor humano projeta sua subjetividade no texto, dialogando com outros enunciados. A IA, sem subjetividade ou intencionalidade, reflete padrões extraídos de dados e algoritmos, o que limita sua capacidade de inovação e de gerar ideias genuinamente originais.
A colaboração com a IA na produção acadêmica pode diluir a fronteira entre o autor humano e a máquina, levando a uma nova compreensão da criatividade e da coautoria. Contudo, questões éticas e legais surgem, como a responsabilidade pelo conteúdo gerado, especialmente se contiver informações erradas ou prejudiciais. A ausência de um posicionamento axiológico próprio na IA compromete sua contribuição para debates científicos que demandam engajamento crítico e reflexivo.
Diante desse cenário, é imperativo que a integração da IA na produção acadêmica seja pautada por diretrizes éticas claras, promovendo a transparência no seu uso, a citação adequada de fontes e a responsabilidade na interpretação dos resultados. Treinamentos e workshops para pesquisadores e acadêmicos são essenciais para o uso responsável e criativo dessas ferramentas. A avaliação crítica dos resultados gerados pela IA é fundamental, incentivando os autores a questionar e validar as informações antes de incorporá-las em suas produções.
Em suma, embora a IA possa auxiliar na formalização e organização de textos, a autoria verdadeira permanece inseparável do posicionamento axiológico, da intencionalidade e da historicidade, elementos exclusivamente humanos. O autor humano deve garantir que a colaboração com a IA não comprometa a autenticidade, a originalidade e o engajamento dialógico característicos da autoria científica, mantendo o ato responsável como uma orientação ética fundamental na construção do conhecimento.
Referência:
GIFONI TIERNO, M. Entre humanos e algoritmos: autoria, estilo e enunciação em tempos de inteligência artificial. Open Minds International Journal, São Paulo, v.6, n. 1, p. 52-64, 2025.