Início OpiniãoDistinguindo Narcisismo e Autoestima: Um Novo Olhar sobre a Personalidade

Distinguindo Narcisismo e Autoestima: Um Novo Olhar sobre a Personalidade

por Redação CPAH

Há uma crença comum, tanto na psicologia quanto na cultura popular, de que o narcisismo é simplesmente uma forma excessiva de autoestima. No entanto, pesquisas recentes desafiam essa visão, demonstrando que o narcisismo e a autoestima são construtos distintos com fenótipos, consequências, desenvolvimentos e origens diferentes. A linha que separa os dois está nas experiências de socialização que os moldam, e uma compreensão clara dessa distinção é fundamental para o desenvolvimento de intervenções eficazes.

O narcisismo e a alta autoestima se diferenciam qualitativamente. Narcisistas se veem como superiores aos outros em traços de agência, como competência e inteligência. Em contraste, indivíduos com alta autoestima sentem-se satisfeitos consigo mesmos, mas não se consideram necessariamente superiores. Essa diferença fundamental de perspectiva — uma visão hierárquica (vertical) em relação aos outros versus uma visão não hierárquica (horizontal) — é a base para suas interações sociais e bem-estar.

As consequências sociais de cada traço são marcadamente diferentes. Narcisistas buscam dominar os outros e usar as pessoas para alcançar status social, aspirando “ter sucesso” em vez de “se dar bem”. Eles externalizam sentimentos de vergonha com agressividade quando não recebem a admiração que anseiam. Por outro lado, indivíduos com alta autoestima desejam estabelecer laços profundos e íntimos, almejando “se dar bem” com os outros, e são menos propensos a explosões agressivas ou atos de delinquência.

O desenvolvimento e as origens desses traços também divergem significativamente. Embora ambos surjam no final da infância, por volta dos 7 anos, suas trajetórias ao longo da vida são opostas. O narcisismo atinge o pico na adolescência e diminui na idade adulta, enquanto a autoestima atinge o seu ponto mais baixo na adolescência e aumenta na vida adulta. Em um estudo prospectivo, o narcisismo foi associado à supervalorização parental, onde os pais viam seus filhos como “indivíduos especiais com direito a privilégios”. A autoestima, por outro lado, foi fomentada pelo afeto e apreço dos pais, levando as crianças a internalizarem o sentimento de “serem dignas”.

A supervalorização dos filhos pode inadvertidamente cultivar o narcisismo, ao invés de aumentar a autoestima. Uma intervenção promissora seria focar em práticas de socialização que promovam afeto e apreço sem supervalorização, ensinando as crianças a se sentirem felizes consigo mesmas sem se considerarem superiores.

Em suma, a distinção entre narcisismo e autoestima, baseada em evidências sólidas sobre suas origens e manifestações, oferece um novo arcabouço para pesquisadores e clínicos. Esta demarcação pode guiar futuras investigações e intervenções para elevar a autoestima e, ao mesmo tempo, restringir o narcisismo desde cedo.

Referência:

Brummelman, E., Thomaes, S., & Sedikides, C. (2016). Separating narcissism from self-esteem. Current Directions in Psychological Science, 25(1), 8–13. https://doi.org/10.1177/0963721415619737

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