Home OpiniãoCicatrizes do Cativeiro: Perspectivas Biopsicossociais e a Eficácia da Terapia de Processamento Cognitivo no TEPT Pós-Sequestro

Cicatrizes do Cativeiro: Perspectivas Biopsicossociais e a Eficácia da Terapia de Processamento Cognitivo no TEPT Pós-Sequestro

by Redação CPAH

O fenômeno do sequestro tem se tornado uma preocupação crítica de saúde pública em diversas regiões, com repercussões psicopatológicas que transcendem o período de cativeiro. A experiência de ser mantido como refém impõe ao indivíduo um estresse traumático extremo, frequentemente resultando no desenvolvimento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Segundo Abiola e Fajimolu (2024), a análise de casos de sequestro revela que o impacto não é meramente psicológico, mas envolve uma complexa interação biopsicossocial. Fatores como a idade do sobrevivente, o suporte social disponível e a integridade biológica prévia modulam a severidade dos sintomas. Em idosos, por exemplo, o trauma pode exacerbar condições físicas preexistentes e levar a uma desregulação profunda do eixo do estresse, manifestando-se através de pesadelos intrusivos, hipervigilância e uma esquiva debilitante de estímulos que remetam ao evento traumático.

A compreensão dos mecanismos de manutenção do TEPT pós-sequestro aponta para a importância das cognições desadaptativas ou “pontos de travamento” (stuck points). Durante o cativeiro, o indivíduo pode desenvolver crenças distorcidas sobre segurança, confiança e culpa, que persistem após a libertação. De acordo com Abiola e Fajimolu (2024), essas crenças funcionam como barreiras para a recuperação natural, exigindo intervenções que foquem na reestruturação cognitiva. A Terapia de Processamento Cognitivo (CPT) tem se mostrado uma ferramenta robusta nesse contexto. Ao incentivar o paciente a confrontar e desafiar os pensamentos automáticos sobre o trauma, a CPT promove uma ressignificação da experiência, permitindo que o sobrevivente integre o evento em sua história de vida sem que este continue a ditar suas reações emocionais e comportamentais no presente.

A eficácia clínica da CPT no tratamento de vítimas de sequestro é evidenciada pela redução significativa em escalas de gravidade de TEPT e depressão. O protocolo, que envolve a identificação de distorções cognitivas e o desenvolvimento de habilidades de processamento emocional, permite que o paciente recupere o senso de agência e autonomia. Segundo Abiola e Fajimolu (2024), a aplicação bem-sucedida da CPT em idosos demonstra a plasticidade dos processos cognitivos mesmo em fases avançadas da vida, desde que a intervenção seja sensível às particularidades biopsicossociais do indivíduo. Além disso, a melhoria nos sintomas de ansiedade e a restauração da funcionalidade social reforçam que a recuperação é possível através de métodos terapêuticos baseados em evidências. É imperativo que sistemas de saúde em áreas de alta incidência de criminalidade adotem modelos de cuidado que integrem a psicoterapia focada no trauma como pilar fundamental da reabilitação pós-crise.

Em suma, o sequestro deixa marcas profundas que exigem uma resposta terapêutica especializada e multidimensional. A transição de um estado de vitimização para o de sobrevivência ativa depende da desarticulação dos esquemas cognitivos de medo e desamparo instalados pelo trauma. Conforme discutido por Abiola e Fajimolu (2024), o uso de intervenções estruturadas como a Terapia de Processamento Cognitivo oferece um caminho promissor para mitigar o sofrimento e prevenir a incapacidade crônica. Ao abordar o trauma sob uma lente biopsicossocial, profissionais de saúde podem não apenas tratar os sintomas isolados, mas promover uma restauração global da saúde mental, permitindo que os sobreviventes reconstruam seu sentimento de segurança e pertencimento em um mundo que se tornou, temporariamente, um lugar de ameaça.

Referência (ABNT):

ABIOLA, Tajudeen; FAJIMOLU, Olugbenga Ola. Kidnapping-Induced Post-Traumatic Stress Disorder in an Elderly Nigerian Woman: Biopsychosocial Insights and Cognitive Processing Therapy Outcomes. Rwanda Journal of Medicine and Health Sciences, v. 7, n. 2, p. 380-385, jul. 2024. Disponível em: https://dx.doi.org/10.4314/rjmhs.v7i2.23.

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