O conceito de superdotação infantil, historicamente focado em traços intelectuais e criativos, tem sido expandido para incluir o desenvolvimento psicológico e emocional. A teoria de Kazimierz Dabrowski oferece um modelo valioso para a compreensão desses aspectos, sugerindo que a sensibilidade e a intensidade emocional, frequentemente vistas como desajustes, são, na verdade, potenciais positivos para o crescimento pessoal. Dabrowski (1967, 1972) propôs que essas características se manifestam em crianças superdotadas por meio de cinco “super-excitabilidades”: psicomotora, sensual, intelectual, imaginacional e emocional.
Um estudo qualitativo de caso analisou a manifestação dessas super-excitabilidades em cinco crianças superdotadas, com idades entre 4 e 6 anos. Os participantes, todos com QIs acima de 130, foram selecionados com base em um processo multifacetado que incluiu questionários para pais, histórico de desenvolvimento e avaliações baseadas em atividades. Os resultados da pesquisa revelaram que todas as crianças exibiram comportamentos consistentes com as super-excitabilidades intelectual, imaginacional e emocional, enquanto as características psicomotora e sensual foram observadas em duas das crianças.
Manifestações das Super-Excitabilidades
A super-excitabilidade intelectual, caracterizada por uma intensa curiosidade, concentração e prazer em aprender, foi observada em todas as crianças. Por exemplo, um dos participantes, Gerald, demonstrava gostar de resolver problemas de matemática por diversão. Outro, Peter, exibia uma concentração intensa e buscava entender conceitos complexos, como números negativos, desde os dois anos de idade.
A super-excitabilidade imaginacional se manifesta por meio de um “jogo livre da imaginação”, incluindo devaneios, pensamento animista e dramatização. Todas as crianças mostraram traços dessa excitabilidade, mas Steven se destacou, frequentemente se engajando em jogos de faz de conta e criando histórias elaboradas para suas ações, como transformar um lápis em uma nave espacial. Sua atenção podia parecer dispersa, mas ele ainda era capaz de processar informações enquanto “sonhava acordado” ou olhava pela janela.
A super-excitabilidade emocional, talvez a mais visível, inclui extrema sensibilidade, empatia, ansiedade e uma grande profundidade de sentimento. As cinco crianças demonstraram essa característica através de uma forte preocupação com os outros. Peter, por exemplo, exibia timidez e ansiedade em novos ambientes, reagindo intensamente a estímulos como o barulho da sala de aula, o que ele demonstrava cobrindo os ouvidos e chorando. O estudo ressalta que essa intensidade não deve ser vista como um desequilíbrio neurótico, mas sim como um potencial para o desenvolvimento avançado.
As super-excitabilidades psicomotora e sensual também foram identificadas no estudo. Katrina exibia a super-excitabilidade psicomotora por meio de um excesso de energia, fala rápida e uma necessidade constante de movimento para se engajar no aprendizado. Já Heather manifestava a super-excitabilidade sensual, buscando prazeres sensoriais e usando-os para liberar tensão, como cheirar canetas e sentir texturas de tecidos.
Implicações para a Educação
O artigo argumenta que educadores devem estar cientes dessas super-excitabilidades e compreendê-las como parte intrínseca da superdotação, e não como indicadores de problemas psicológicos como TDAH ou neuroses. O comportamento de uma criança superdotada, como a inatenção de Steven ou a agitação de Katrina, pode se assemelhar a um distúrbio, mas o estudo indica que a energia e a concentração da criança superdotada são direcionadas e focadas em interesses particulares, diferentemente da incapacidade de concentração encontrada no TDAH.
Ao reconhecer e valorizar a totalidade do indivíduo — a combinação de suas características sociais, emocionais, físicas e intelectuais — os educadores podem criar ambientes mais adequados e eficazes para o aprendizado. A teoria de Dabrowski, e a super-excitabilidade em particular, oferece uma ferramenta conceitual adicional para que os professores entendam o desenvolvimento emocional de seus alunos avançados e vejam comportamentos intensos como manifestações de um desenvolvimento avançado.
Referência:
TUCKER, B.; HAFENSTEIN, N. L. Psychological Intensities in Young Gifted Children. Gifted Child Quarterly, v. 41, n. 3, p. 66–75, Summer 1997.

