A Teoria das Múltiplas Inteligências como Neuromito: Uma Análise Crítica sob a Perspectiva da Neurociência

A Teoria das Múltiplas Inteligências (MI) de Howard Gardner tem sido amplamente aceita e utilizada no campo da educação, mas muitos pesquisadores a consideram um neuromito, ou seja, uma afirmação não científica sobre o funcionamento cerebral, que pode se basear em uma má interpretação de achados da pesquisa cerebral. Gardner propôs a existência de inteligências independentes baseadas no cérebro para diferentes tipos de habilidades cognitivas, como linguística, lógico-matemática, visoespacial, corporal-cinestésica, musical, interpessoal, intrapessoal e naturalista. No entanto, a falta de evidências empíricas para apoiar essa teoria tem sido uma preocupação crescente ao longo dos anos.

A principal crítica à teoria MI é a ausência de evidências diretas de uma base cerebral para cada uma das inteligências. Embora Gardner tenha afirmado que as inteligências envolvem processos executados por redes neurais dedicadas e que cada uma possui suas próprias bases biológicas e arquiteturas neurais únicas, nenhuma correlação neural específica para as inteligências foi encontrada até o momento. Além disso, estudos fatoriais não demonstraram que as inteligências sejam independentes, como postulado por Gardner. A intercorrelação entre as habilidades cognitivas desafia a premissa de inteligências separadas.

A crença na eficácia das estratégias de ensino baseadas na teoria MI é forte entre educadores, com relatos de que a maioria dos professores em formação nos Estados Unidos (90%) e no Quebec (94%) planejam ou utilizam essas abordagens. A ideia é que ensinar de acordo com as inteligências mais fortes de um aluno seria mais eficaz. Contudo, estudos sobre os efeitos das estratégias de ensino baseadas em MI não controlaram para outras causas possíveis de melhorias na aprendizagem, como a repetição de informações, o aumento da atenção do aluno devido a estratégias de ensino novas, a atenção pessoal do instrutor ou o entusiasmo do professor. Pesquisas em neurociência cognitiva têm demonstrado que a repetição, a novidade e a atenção individual realmente melhoram a aprendizagem.

Um ponto crucial é que a neurociência moderna, ao contrário das teorias dos anos 1980 e 1990 em que Gardner baseou sua teoria , demonstrou que o cérebro não é organizado em módulos cognitivos separados e dedicados a formas específicas de cognição. Em vez disso, o cérebro opera por meio de redes complexas e multifuncionais, onde as diferentes formas de cognição ocorrem em um processo de constantes mudanças entre grandes e pequenas redes, e não em módulos estáticos dedicados a conteúdos específicos. Por exemplo, o processamento da linguagem ocorre nas mesmas redes que também processam tarefas cognitivas como matemática, música e lógica, além de diversas habilidades perceptuais e motoras. Essa funcionalidade multifuncional é explicada pela exaptação, a reutilização de neurônios em redes cerebrais existentes para dar suporte a novas habilidades e conhecimentos, o que é uma forma adaptativa de reduzir a energia necessária para construir novas redes cerebrais.

Apesar da falta de apoio empírico e das evidências neurocientíficas que refutam a modularidade cerebral proposta pela teoria MI, a crença nela e o uso de suas estratégias de ensino continuam disseminados nas salas de aula em todo o mundo. A persistência dessa crença, mesmo entre professores com conhecimento sobre o cérebro, sugere a dificuldade em distinguir pseudociência de fatos científicos. Intervenções para mudar a crença em neuromitos têm tido resultados variados, e a refutação direta ou o treinamento em neurociência nem sempre se mostram eficazes. É crucial que educadores aprendam a detectar e rejeitar neuromitos, e que neurocientistas e educadores trabalhem juntos para estabelecer um novo campo da neurociência educacional que incentive o pensamento crítico e se baseie em evidências.

A Teoria das Múltiplas Inteligências, por não ser baseada em evidências empíricas sólidas e por ser contrariada por descobertas da neurociência contemporânea, deve ser rejeitada. A crença generalizada nessa teoria inibe o desenvolvimento de estratégias de ensino eficazes e baseadas em evidências.

Referência:

Waterhouse, L. (2023). Why multiple intelligences theory is a neuromyth. 

Frontiers in Psychology, 14, 1217288. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1217288 

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