O Transtorno do Espectro Autista (TEA) manifesta-se através de uma acentuada heterogeneidade clínica, estruturada metodologicamente por níveis de suporte que variam da necessidade moderada à muito substancial. No âmbito dos níveis de suporte 2 e 3, crianças autistas não verbais encontram-se frequentemente submetidas a uma condição neurobiológica de extrema vulnerabilidade, expressando comportamentos desafiadores complexos, como a autoagressão e a heteroagressão direcionada a cuidadores ou profissionais. Longe de constituírem atos intencionais de insubordinação, as evidências científicas indicam que essas manifestações de agressividade representam um acúmulo de tensão psicofisiológica gerado pela total incapacidade de externalizar verbalmente dores, medos, desconfortos ou frustrações. Diante de barreiras comunicativas severas e de recursos cognitivos limitados para processar as demandas externas, o organismo desses indivíduos recorre a canais somatizados de descarga motora como sua única válvula de escape. Sob essa perspectiva, o comportamento agressivo assume o papel de única “voz” biologicamente viável em um cenário de estresse agudo.
A etiologia neurobiológica dessa agressividade pode ser compreendida de forma robusta por meio do modelo evolutivo do cérebro trino, o qual mapeia a coexistência funcional do neocórtex (responsável pela linguagem, lógica e planejamento), do sistema límbico (modulador das emoções e do comportamento social) e do cérebro reptiliano. Esta última estrutura, que engloba as formações mais antigas da filogênese encefálica em conjunto com o tronco encefálico e o cerebelo, rege de maneira automática e reflexa as funções vitais de sobrevivência e as respostas instintivas de autoproteção face ao perigo, classicamente categorizadas como luta, fuga ou congelamento. Em indivíduos neurotípicos, os circuitos do córtex pré-frontal exercem uma modulação inibitória (um “freio” cortical) contínua e eficaz sobre as respostas automáticas geradas pelo cérebro reptiliano, permitindo uma análise racional, a contextualização da ameaça percebida e a posterior escolha de uma conduta socialmente adaptativa. Contudo, no fenótipo neurodivergente do autismo severo, esse sistema de controle executivo neocortical encontra-se funcionalmente comprometido ou atípico, enfraquecendo a regulação inibitória sobre as estruturas primitivas de sobrevivência.
Essa desregulação de caráter neuroanatômico e funcional resulta em uma acentuada distorção no processamento sensorial e cognitivo das crianças autistas de suporte elevado. Fenômenos corriqueiros e estímulos de intensidade ambiental considerada neutra por indivíduos neurotípicos — tais como ruídos imprevistos, oscilações luminosas, texturas específicas, quebras inesperadas na rotina previsível ou a interrupção abrupta de atividades prediletas — são processados pelo sistema nervoso atípico como ameaças eminentes e reais à integridade do organismo. Essa interpretação enviesada aciona de forma instantânea o alarme fisiológico do cérebro reptiliano, induzindo o sistema nervoso autônomo a desencadear uma massiva cascata hormonal de adrenalina e cortisol. Sem a modulação inibidora do neocórtex e desprovido de ferramentas de comunicação aumentativa ou alternativa para negociar ou verbalizar o sofrimento, o organismo converge diretamente para a ativação do circuito de “luta”, traduzido fisicamente pela conduta agressiva imediata. A agressão surge, portanto, como um esforço desesperado de autoproteção biológica para repelir o estímulo adverso ou reestabelecer o controle ambiental.
O redirecionamento conceitual da agressividade no TEA, migrando de uma visão punitiva ou puramente comportamental para um modelo pautado na neurobiologia evolutiva, redefine por completo as estratégias de intervenção clínica e educacional. A mitigação dos comportamentos disruptivos depende obrigatoriamente do mapeamento minucioso e da prevenção sistemática de gatilhos sensoriais e ambientais causadores de sobrecarga, aliando a isso a estruturação de ambientes altamente previsíveis. Paralelamente, faz-se indispensável a introdução precoce de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), como o Picture Exchange Communication System (PECS) ou dispositivos eletrônicos de alta tecnologia, os quais substituem funcionalmente a via de descarga motora agressiva ao fornecerem à criança uma ferramenta legítima de expressão de suas necessidades. Intervenções fundamentadas no cuidado informado pelo trauma (Trauma-Informed Care) e o treinamento direcionado de habilidades de autorregulação fisiológica por meio de suporte multiprofissional integrado consolidam um ambiente terapêutico focado na segurança biológica, permitindo desarmar o estado de alerta crônico em que o cérebro reptiliano desses indivíduos opera continuamente.
Referência (Padrão ABNT)
PEREIRA DA SILVA, Adriel; AGRELA RODRIGUES, Fabiano de Abreu. Luta ou Fuga no Espectro Autista: Uma Análise Comparativa dos Mecanismos Primitivos do Cérebro Reptiliano e a Agressividade em Crianças Não Verbais de Níveis de Suporte 2 e 3. Revista Internacional de Ciencias Sociales, v. 4, n. 2, p. e726, maio/ago. 2025. DOI: https://doi.org/10.57188/RICSO.2025.726. Disponível em: https://doi.org/10.57188/RICSO.2025.726. Acesso em: 24 maio 2026.