Home OpiniãoA Psicopatologia do Gaslighting: Táticas de Manipulação e a Erosão da Realidade Subjetiva

A Psicopatologia do Gaslighting: Táticas de Manipulação e a Erosão da Realidade Subjetiva

by Redação CPAH

O gaslighting é uma modalidade insidiosa de manipulação psicológica que visa desestabilizar a percepção da realidade da vítima, levando-a a questionar sua própria memória, sanidade e julgamento. Embora o termo tenha origem na cultura popular (derivado da peça teatral Gas Light), sua análise científica revela uma dinâmica de poder perversa onde o manipulador, ou “gaslighter”, utiliza comunicações sistemáticas para induzir confusão e dependência emocional. De acordo com Dilmukhametova (2019), essa forma de abuso não se limita a mentiras ocasionais, mas constitui um ataque persistente à confiança epistemológica do indivíduo. O agressor frequentemente projeta traços de personalidade como narcisismo e falta de empatia, utilizando-se da proximidade afetiva para invalidar sistematicamente as experiências da vítima, transformando o ambiente relacional em um cenário de insegurança psicológica crônica.

As táticas comunicativas empregadas no gaslighting são caracterizadas pelo uso de léxico expressivo e estratégias de negação deliberada. O manipulador frequentemente recorre a frases que minimizam os sentimentos do alvo ou invertem a responsabilidade pelos conflitos, como “você está imaginando coisas” ou “você é sensível demais”. Segundo Dilmukhametova (2019), através da análise de interações sociais e representações midiáticas (como no filme Alles Isy), observa-se que o manipulador busca o controle total da narrativa, isolando a vítima de suas referências externas de verdade. Esse processo de “lavagem cerebral” sutil faz com que o indivíduo abusado passe a confiar mais na versão dos fatos apresentada pelo agressor do que em seus próprios sentidos, resultando em uma erosão da identidade e em quadros severos de ansiedade e depressão.

A eficácia do gaslighting reside na sua natureza gradual e muitas vezes invisível para observadores externos. O manipulador pode alternar entre momentos de agressão verbal e períodos de “falsa bondade”, o que gera um reforço intermitente que aprisiona a vítima em um ciclo de busca por aprovação. Conforme discutido por Dilmukhametova (2019), o reconhecimento dos meios comunicativos de manipulação é o primeiro passo para o rompimento desse vínculo patológico. A sociedade e os profissionais de saúde mental devem estar atentos aos sinais de deslegitimação sistemática do discurso alheio, pois o gaslighting atua como um mecanismo de destruição da autonomia subjetiva. Fortalecer a percepção da realidade e a autoeficácia das vítimas é essencial para mitigar os danos de longo prazo causados por essa forma devastadora de violência psicológica encoberta.

Referência (ABNT):

DILMUKHAMETOVA, A. V. Gaslighting as a form of psychological manipulation (the case of the movie „Alles Isy“). Reports of Bashkir University, Ufa, v. 4, n. 5, p. 531-535, 2019. DOI: 10.33184/dokbsu-2019.5.12.

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