Início OpiniãoA lacuna entre o discurso popular e a definição científica de gaslighting

A lacuna entre o discurso popular e a definição científica de gaslighting

por Redação CPAH

A manipulação psicológica conhecida como gaslighting tem ganhado notoriedade no discurso público e na cultura popular nos últimos anos, tornando-se um tema recorrente na mídia e em plataformas de redes sociais. No entanto, o conhecimento empírico sobre como o público percebe e define essa forma de abuso permanece limitado. A pesquisa de Darke et al. (2025) buscou preencher essa lacuna, investigando as percepções de 595 estudantes universitários australianos a respeito do gaslighting por meio de vinhetas e um questionário de definição.

A pesquisa revelou que os estudantes, em geral, reconhecem o gaslighting como um tipo de abuso emocional, mas ainda há ambiguidades na sua definição e identificação. A maioria dos participantes identificou o comportamento manipulador e o resultado de autoconfiança abalada como elementos centrais, enquanto a intenção do agressor e o abuso emocional também foram considerados essenciais. Por outro lado, a repetição, o desequilíbrio de poder, o isolamento e a intimidade foram considerados menos relevantes para a definição por grande parte do grupo.

A pesquisa de Darke et al. (2025) demonstra que, embora os participantes reconheçam os fatores de repetição, intenção e a resposta da vítima como relevantes na identificação do gaslighting, a ausência desses elementos não impede que o comportamento seja classificado como tal. Além disso, a forma como os participantes definiram o gaslighting difere de como eles o identificaram nas vinhetas. Por exemplo, o resultado de autoconfiança abalada foi considerado um componente definidor, mas teve o menor impacto na identificação do comportamento nas histórias. Essa discrepância sugere que a visão do público sobre o termo é vaga e flexível, o que pode levar a um conceito excessivamente amplo, ou conceptual creep. Esse fenômeno, que também é notado no meio acadêmico, pode diluir a seriedade do gaslighting em contextos de violência interpessoal e dificultar a identificação de casos genuínos de abuso.

Diante disso, a pesquisa enfatiza a necessidade de campanhas de conscientização que não apenas destaquem a seriedade do gaslighting como forma de violência, mas também esclareçam seus limites e fatores facilitadores, como a repetição ao longo do tempo, o isolamento, o abuso verbal ou físico, e o controle coercitivo. A conscientização sobre esses padrões de comportamento, em vez de se focar na intenção do agressor, que pode ser difícil de provar, é fundamental para o reconhecimento e a intervenção eficazes. A educação pública, especialmente em escolas e comunidades, é crucial para promover uma mudança cultural que reduza a prevalência e a aceitação de tais comportamentos abusivos.

Referência:

Darke, L., Paterson, H., & van Golde, C. (2025). Public Perceptions of Gaslighting: Understanding Definitions, Recognition, and Responses. Journal of Social and Personal Relationships, 0(0), 1-24. https://doi.org/10.1177/02654075251366643

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