Home OpiniãoA Invisibilidade do Abuso: O Fenômeno do Gaslighting na Academia de Enfermagem

A Invisibilidade do Abuso: O Fenômeno do Gaslighting na Academia de Enfermagem

by Redação CPAH

O ambiente acadêmico, embora idealizado como um espaço de erudição e ética, não está imune a dinâmicas de poder disfuncionais e comportamentos abusivos. Entre as formas mais insidiosas de violência psicológica destaca-se o gaslighting, uma variante perniciosa de assédio moral (bullying) que vem ganhando notoriedade na academia de enfermagem. Diferente das agressões manifestas, o gaslighting opera de maneira oculta, utilizando a manipulação da informação para fazer com que a vítima questione sua própria percepção da realidade, memória e sanidade. Segundo Christensen e Evans-Murray (2021), essa prática é particularmente desafiadora porque as ferramentas tradicionais de identificação de violência horizontal não possuem sensibilidade suficiente para detectar a sutileza das táticas empregadas pelo perpetrador. O objetivo central do agressor é estabelecer um domínio psicológico absoluto, fragmentando a autoconfiança da vítima através de mentiras perpétuas e distorções factuais.

As táticas utilizadas no gaslighting acadêmico são diversificadas e estrategicamente desenhadas para criar um estado de confusão e caos mental. Entre os comportamentos identificados, destacam-se o uso de mentiras descaradas mesmo diante de evidências, a negação de promessas feitas e o emprego de reforço positivo intermitente para desorientar a vítima. De acordo com Christensen e Evans-Murray (2021), o manipulador pode alternar entre críticas severas e elogios súbitos, uma técnica que mantém o alvo em constante estado de alerta e dependência emocional. Além disso, a prática do “mobbing” — o recrutamento de colegas para isolar ou desacreditar o indivíduo — e a apresentação de queixas frívolas ou vexatórias são comuns para minar a reputação profissional do docente ou pesquisador, caracterizando uma forma de injustiça epistêmica que invalida a voz e a competência do profissional.

O impacto psicológico e profissional do gaslighting na enfermagem é devastador, resultando em danos que transcendem o ambiente de trabalho. A exposição prolongada a esse tipo de abuso pode levar a quadros de ansiedade severa, depressão, fadiga crônica e até ideação suicida. Christensen e Evans-Murray (2021) ressaltam que, na academia de enfermagem, onde o cuidado e a ética deveriam ser pilares, a presença desse comportamento compromete não apenas a saúde mental dos acadêmicos, mas a própria integridade da profissão. A natureza coercitiva do gaslighting destrói a autonomia do indivíduo, tornando essencial que as instituições desenvolvam mecanismos de denúncia sensíveis a abusos encobertos. Somente através do reconhecimento dessas táticas e do fortalecimento de uma cultura de transparência será possível erradicar essa patologia organizacional silenciosa e restaurar o ambiente acadêmico como um espaço de segurança e desenvolvimento intelectual.

Referência (ABNT):

CHRISTENSEN, Martin; EVANS-MURRAY, Anne. Gaslighting in nursing academia: A new or established covert form of bullying? Nursing Forum, v. 56, n. 3, p. 640-647, jul. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1111/nuf.12588.

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