Por: Leninha Wagner – PhD em Neurociências e Psicóloga
Na minha última reflexão, trouxe à tona uma realidade vivida por adultos superdotados, com base no ensaio do Dr. Fabiano de Abreu Agrela, pós-PhD em Neurociências e detentor do maior QI registrado no Brasil pelo RankBrasil. O texto “Intolerância de superdotados adultos: quando o tempo te isola pelo cansaço” descreve como a alta capacidade cognitiva pode levar a uma intolerância seletiva, marcada por impaciência com conversas redundantes, erros lógicos e processos lentos. Como colunista do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), quero justificar e aprofundar essa discussão, conectando-a à ciência e à experiência humana.
Por que falar sobre isso?
A superdotação é frequentemente romantizada, vista como uma vantagem absoluta. Mas, como Dr. Fabiano revela, ela vem com um preço: o esgotamento mental. A intolerância descrita não é arrogância, mas uma resposta neurofisiológica a um cérebro que opera em alta velocidade. No CPAH, onde estudamos comportamento e neurociência, esse tema é crucial para desmistificar a superdotação e promover uma compreensão mais empática. O ensaio de Dr. Fabiano, baseado em sua própria vivência, oferece uma janela única para entender como o tempo e a saturação mental moldam a vida de pessoas com alta inteligência.
O que a ciência nos diz?
O texto explica que o cérebro de um superdotado funciona de forma diferente. Áreas como o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL), responsável por planejamento e tomada de decisão, e o córtex cingulado anterior, que detecta erros, operam em hiperatividade. Essa conectividade intensa, combinada com a ação da amígdala, amplifica a sensibilidade a inconsistências e reduz a paciência para estímulos repetitivos. Estudos neurocientíficos, como os citados por Dr. Fabiano, mostram que essa hiperatividade pode levar à fadiga mental, especialmente após os 35 ou 40 anos, quando a capacidade de inibir reações emocionais diminui.
Do ponto de vista genômico, variações em genes como o COMT, que regula a dopamina, podem intensificar essas reações. A dopamina, associada ao prazer e à motivação, faz com que superdotados busquem estímulos complexos, rejeitando o óbvio. Esse mecanismo, somado ao desgaste acumulado de lidar com um mundo que parece “mais lento”, cria o que Dr. Fabiano chama de “economia afetiva”: a necessidade de selecionar interações para preservar a saúde mental.
Por que isso importa para o CPAH?
No Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, nosso foco é entender o comportamento humano em suas múltiplas facetas. A intolerância dos superdotados não é apenas uma curiosidade acadêmica; ela tem implicações práticas. Profissionais de saúde mental, educadores e até mesmo colegas de trabalho precisam reconhecer que comportamentos como impaciência ou retraimento social em superdotados podem ser sinais de sobrecarga, não de superioridade. Compreender isso permite criar estratégias de apoio, como ambientes que estimulem intelectualmente ou intervenções que promovam regulação emocional.
O relato pessoal de Dr. Fabiano, que admite sentir “uma não vontade de ouvir” diante do previsível, humaniza a discussão. Ele não apenas analisa o fenómeno como cientista, mas o vive como indivíduo, oferecendo uma perspectiva autêntica. Isso reforça a missão do CPAH de integrar ciência e experiência para avançar o conhecimento sobre a mente humana.
Como avançar?
O ensaio sugere caminhos práticos: superdotados podem se beneficiar de técnicas para gerir a intolerância e de ambientes que ofereçam desafios intelectuais. No CPAH, estamos comprometidos em explorar essas ideias, desenvolvendo estudos que combinem neurociência, genômica e psicologia para criar intervenções personalizadas. Além disso, é essencial educar a sociedade para substituir o julgamento por empatia, reconhecendo que, para o superdotado, o tempo carrega um peso único.
Como Dr. Fabiano conclui, “a consciência disso não isenta o comportamento, mas permite compreendê-lo”. Aqui no CPAH, nosso objetivo é transformar essa compreensão em ações concretas, promovendo bem-estar para mentes brilhantes que, apesar de seu potencial, enfrentam desafios silenciosos.