A correlação entre o elevado Quociente de Inteligência (QI) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem sido objeto de crescente investigação na neuropsicologia contemporânea, motivada pela observação de que indivíduos situados no topo da curva de distribuição da inteligência frequentemente manifestam traços comportamentais sobrepostos ao espectro. De acordo com Rodrigues et al. (2024), existe uma incidência notável de indivíduos com diagnósticos de TEA em populações que possuem um QI no percentil 98 ou superior. Contudo, investigações realizadas em sociedades de alto QI, como Intertel, ePiq e ISI Society, indicam que, embora a presença de autistas seja significativa, eles não constituem a maioria dos membros dessas organizações. Essa constatação desafia o estereótipo comum que vincula indissociavelmente a superdotação profunda ao autismo, sugerindo que a alta inteligência e o TEA, embora possam coexistir, são construtos distintos que exigem avaliações diferenciadas.
Do ponto de vista clínico, a identificação do autismo em indivíduos com alto QI enfrenta barreiras significativas, principalmente devido à capacidade de mascaramento social e aos mecanismos de compensação neural desenvolvidos por essa população. Rodrigues et al. (2024) levantam a hipótese de que muitos indivíduos com altas habilidades podem estar subdiagnosticados para o TEA, uma vez que o foco primordial das avaliações em sociedades de inteligência reside exclusivamente na mensuração psicométrica do QI. A ausência de critérios neuropsicológicos abrangentes nos processos de admissão dessas sociedades pode resultar em um mapeamento impreciso da real prevalência de traços autistas. Sugere-se que indivíduos com autismo de nível 1 de suporte possam apresentar um QI acima da média populacional como resultado de uma especialização funcional do cérebro, o que torna a integração de diagnósticos neuropsicológicos detalhados essencial para compreender as nuances dessa interseção cognitiva.
A complexidade desta relação evidencia a necessidade de uma visão mais matizada sobre o “cérebro social” em contextos de superdotação. Conforme discutido por Rodrigues et al. (2024), a análise de grupos de “superdotados” revela que a maioria realizou testes de QI, mas apenas uma parcela minoritária possui um diagnóstico formal de autismo. Esse cenário reforça a importância de diferenciar entre traços de personalidade típicos da alta inteligência — como a hiperfocalização e a preferência pela lógica — e os critérios diagnósticos do TEA. Em suma, a pesquisa nas sociedades de alto QI indica que a inteligência superior pode atuar como um fator modulador da manifestação do autismo, exigindo que a ciência e a clínica evoluam para diagnósticos que considerem a pluralidade do desenvolvimento neurológico humano.
Referência (ABNT):
RODRIGUES, Fabiano de Abreu Agrela et al. Analysis of Autism Incidence in High IQ Societies. Ciencia Latina Revista Científica Multidisciplinar, Ciudad de México, v. 8, n. 3, p. 88-103, maio/jun. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.37811/cl_rcm.v8i3.11179.

