A compreensão da arquitetura genética do diabetes tipo 1 (DT1) avançou significativamente com a identificação de mais de 70 regiões genômicas associadas à doença, com destaque para o locus do antígeno leucocitário humano (HLA) de classe II, que contribui com mais de 50% da herdabilidade. Segundo Luckett et al. (2023), essa evolução permitiu o desenvolvimento de ferramentas conhecidas como Escores de Risco Genético (GRS) ou Escores de Risco Poligênico (PRS), que consolidam variantes de múltiplos loci em um único valor numérico. Enquanto o GRS utiliza um conjunto menor de variantes que atingiram significância em todo o genoma, o PRS incorpora milhões de variantes, mesmo as de pequeno efeito, para estimar a suscetibilidade individual. No contexto clínico, essas ferramentas têm demonstrado utilidade prática na classificação diagnóstica, na triagem populacional e na predição da progressão da doença em indivíduos com autoimunidade latente.
Um dos maiores desafios na diabetologia é a distinção precisa entre o DT1, o diabetes tipo 2 (DT2) e o diabetes monogênico (MODY), especialmente em adultos, onde as apresentações clínicas podem se sobrepor. Luckett et al. (2023) enfatizam que o DT1 GRS atua como um biomarcador valioso para auxiliar nessa classificação, apresentando alta sensibilidade e especificidade para diferenciar o DT1 de outras formas de diabetes. A aplicação do escore é particularmente eficaz quando integrada a outros marcadores, como autoanticorpos e níveis de peptídeo C, ajudando a identificar casos de DT1 que não apresentam os anticorpos clássicos ou que surgem em idades avançadas. Essa precisão diagnóstica é fundamental para evitar falhas terapêuticas, garantindo que a terapia com insulina seja iniciada precocemente quando necessária e evitando tratamentos desnecessários em casos de diabetes monogênico.
Além da classificação, o uso de GRS em programas de triagem de saúde pública tem se mostrado promissor para identificar crianças com alto risco genético antes mesmo do surgimento de autoanticorpos. Conforme discutido por Luckett et al. (2023), iniciativas como o estudo GPPAD na Europa utilizam o GRS para selecionar recém-nascidos para ensaios clínicos de prevenção primária, visando modular o sistema imune antes do início do ataque às células beta. Em indivíduos que já apresentam autoanticorpos contra as ilhotas, o GRS auxilia na predição da velocidade de progressão para o diabetes clínico, permitindo um monitoramento mais intensivo daqueles com maior carga genética. Apesar do potencial, a implementação clínica ampla ainda exige a superação de barreiras, como a necessidade de diversidade étnica nos modelos genéticos e a integração eficiente desses dados nos prontuários eletrônicos.
Referência (ABNT):
LUCKETT, Amber M. et al. Utility of genetic risk scores in type 1 diabetes. Diabetologia, v. 66, n. 9, p. 1589-1600, set. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00125-023-05955-y.

