A Escrita em Tempos de IA: Reflexões sobre o Supérfluo Essencial

O advento das tecnologias de geração automática de texto, como as inteligências artificiais (IAs) generativas transformacionais, levanta questões sobre o futuro da escrita e seu papel na sociedade. Este ensaio explora a escrita como tecnologia e discute quais aspectos dela são irredutíveis às máquinas, sendo restritos aos seres humanos. Além disso, pondera sobre o papel das aulas de língua materna na educação básica, especialmente no ensino da leitura e da escrita, propondo que a escola priorize práticas que fomentem a linguagem poética.

A escrita é considerada uma tecnologia, distinguindo-se em duas concepções principais. A primeira refere-se à mobilização de um sistema gráfico para semiotizar uma língua, ou seja, a passagem de uma condição ágrafa para uma gráfica, o que representa um salto cognitivo para a humanidade. A segunda concepção, a textualização, envolve a capacidade de produzir um texto, o que difere da mera codificação e decodificação. Enquanto a codificação/decodificação pressupõe um conhecimento técnico de aplicação e replicação, a textualização exige um saber tecnológico que permite inventividade e criatividade.

A questão central é determinar quais aspectos da escrita podem ser reproduzidos por IAs generativas e quais permanecem exclusivos aos seres humanos. A tecnologia da IA generativa de texto tende a reduzir a escrita a um caráter meramente informacional. No entanto, a escrita, como invenção humana, possui o potencial de resistir ao automatismo semiolinguístico. A capacidade poética, entendida como uma relação com a língua que transcende a informação e privilegia a criação e a experimentação, é um elemento irredutível à máquina.

Delegar a tarefa da escrita a uma entidade não humana, como uma inteligência artificial, é um ineditismo com envergadura para mudar o curso da história, podendo promover uma revolução cognitiva análoga à própria invenção da escrita. O perigo reside em uma sociedade ou indivíduo que acredite que o aspecto utilitário da escrita é tudo, ignorando o aspecto supérfluo e a consciência que se expressa ao escrever. A escrita automatizada, ao reduzir a linguagem ao seu aspecto informacional e destituí-la de poesia, exime o redator de uma experiência singular com a língua e da possibilidade de interrogar sua própria língua e suas formas de produzir sentido

Em suma, embora as IAs possam assumir tarefas escritas de caráter utilitário, poupando esforços consideráveis , a escola e o ensino da língua materna devem se concentrar no aspecto não utilitário da escrita, valorizando a produção de sentido e a expressão da subjetividade humana. O futuro da escrita e de seu ensino reside em concebê-la como uma “arte” no sentido grego de tekhnè, um fazer manual, artesanal, único e irrepetível, que manifesta o desejo humano de criar.

Referência:

Nunes, P. A. (2024). Escrever não é útil. Revista da Abralin, 23(2), 192-213.

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