O Transtorno Depressivo Maior (TDM) é reconhecido como a principal causa global de incapacidade. Embora a doença frequentemente se manifeste na adolescência , e apesar da existência de critérios diagnósticos idênticos para adultos e jovens (com a exceção da permissão de humor irritável em vez de humor deprimido como sintoma central em crianças/adolescentes no DSM-IV e DSM-5) , há evidências substanciais de diferenças etiológicas e de resposta ao tratamento entre as duas faixas etárias.
Perfis Sintomáticos Distintos
Um estudo utilizando dados de uma coorte familiar de duas gerações, com métodos de avaliação clínica e diagnóstico padronizados (Schedules for Clinical Assessment in Neuropsychiatry – SCAN para adultos e Child and Adolescent Psychiatric Assessment – CAPA para adolescentes) , investigou sistematicamente as diferenças na apresentação sintomática do TDM entre adolescentes e adultos.
Os resultados revelaram que, embora a gravidade geral do TDM (contagem média total de sintomas) fosse similar em ambos os grupos , o perfil sintomático diferiu significativamente.
Sintomas mais Comuns em Adolescentes com TDM: Os sintomas vegetativos e físicos foram significativamente mais prevalentes no TDM adolescente. Especificamente, os adolescentes apresentaram maior frequência de:
Perda de energia (presente em 97% dos adolescentes com TDM, sendo considerado um sintoma central neste grupo).
Distúrbios do sono, particularmente insônia (87% dos casos, definida como redução de sono em pelo menos 2 horas).
Mudanças no apetite e peso (incluindo ganho ou perda de peso).
A insônia e a mudança de apetite/peso mostraram-se robustamente mais comuns em adolescentes, mantendo-se após verificações de sensibilidade por idade, histórico familiar e sexoSintomas mais Comuns em Adultos com TDM: Os adultos com TDM, por outro lado, apresentaram maior prevalência de sintomas cognitivos e de interesse. Especificamente:
Anedonia ou perda de interesse.
Problemas de concentração.
O sintoma central de perda de interesse/anedonia foi mais comum em adultos (88%) do que em adolescentes (70%).
Nota sobre Irritabilidade: Apesar de o humor irritável ser um sintoma central aceito no diagnóstico pediátrico, a irritabilidade não foi observada como mais comum no TDM adolescente em comparação com o TDM adulto.
Perfis de Classes Latentes e Implicações Patofisiológicas
A Análise de Classes Latentes (LCA), uma abordagem “centrada na pessoa” utilizada para identificar padrões de sintomas coocorrentes , corroborou as descobertas.
Perfil Adolescente: O perfil sintomático associado à maior probabilidade de TDM em adolescentes (56%) foi o caracterizado pela predominância de sintomas vegetativos (perda de energia, insônia, e alteração de apetite/peso).
Perfil Adulto: Em contraste, um perfil puramente vegetativo não foi observado na amostra de adultos. O perfil adulto com maior probabilidade de TDM (98%) foi o de alta gravidade, caracterizado por altos níveis de todos os sintomas depressivos, exceto mudanças de peso.
Essas diferenças na apresentação clínica do TDM entre adolescentes e adultos sugerem a possibilidade de mecanismos patofisiológicos subjacentes distintos entre os grupos. Do ponto de vista clínico, a implicação crucial é que a não avaliação de sintomas biológicos/vegetativos, como insônia, perda de energia e mudança de apetite, em jovens, pode levar a um diagnóstico perdido (diagnóstico perdido) de depressão. Considerando que o tratamento precoce pode melhorar a trajetória de longo prazo do TDM na adolescência, a ênfase na avaliação destes sintomas biológicos é fundamental para melhorar a identificação e o acesso a serviços terapêuticos.
Referência:
RICE, F. et al. Adolescent and adult differences in major depression symptom profiles. Journal of Affective Disorders, v. 243, p. 175-181, 2019.