A Diátese-Estresse do Apego: Insegurança e Estresse na Perpetração de Maus-tratos entre Parceiros

A compreensão da violência e das dinâmicas destrutivas em relacionamentos românticos exige uma análise que transcenda os atos explícitos de agressão, abrangendo o conceito mais amplo de “maus-tratos entre parceiros”. Este termo engloba desde agressões físicas e sexuais até formas sutis de invalidação, desrespeito e negligência. Sob a ótica da Teoria do Apego, essas condutas não são eventos isolados, mas manifestações de modelos internos de funcionamento estruturados na infância e reativados na vida adulta. De acordo com Knox, Karantzas e Ferguson (2024), a insegurança no apego — manifestada tanto pela ansiedade quanto pela evitação — atua como um preditor significativo da perpetração de maus-tratos. Indivíduos com altos níveis de ansiedade de apego, temendo o abandono, podem recorrer a comportamentos coercitivos como estratégia desadaptativa para manter a proximidade, enquanto aqueles com apego evitativo podem utilizar a agressão ou a negligência como forma de manter uma distância emocional defensiva em relação ao parceiro.

A relação entre a insegurança do apego e os maus-tratos é potencializada por variáveis contextuais, fundamentando o que a literatura denomina como perspectiva de diátese-estresse. Nesse modelo, a vulnerabilidade individual (insegurança no apego) interage com fatores de estresse externos ou relacionais para elevar o risco de comportamentos abusivos. Segundo Knox, Karantzas e Ferguson (2024), o estresse atua como um moderador crítico: em condições de baixa pressão, indivíduos inseguros podem manter uma regulação emocional funcional, mas sob estresse agudo ou crônico, suas deficiências de autorregulação são exacerbadas, resultando em táticas de controle ou hostilidade. A meta-análise revela que tanto a ansiedade quanto a evitação de apego possuem associações de magnitude semelhante com a perpetração de maus-tratos, sugerindo que diferentes caminhos psicodinâmicos podem culminar em desfechos relacionais igualmente deletérios.

A relevância clínica de situar os maus-tratos entre parceiros dentro do arcabouço do apego reside na possibilidade de intervenções mais precisas e estruturais. Ao reconhecer que a agressão muitas vezes mascara uma tentativa desesperada de buscar segurança ou autonomia, as terapias de casal podem focar na reestruturação do vínculo e no desenvolvimento de estratégias de regulação emocional mais saudáveis. Conforme discutido por Knox, Karantzas e Ferguson (2024), é imperativo que profissionais de saúde mental considerem o papel do estresse como um gatilho para a desregulação do sistema de apego. Promover a segurança no vínculo e a resiliência ao estresse não apenas reduz a incidência de maus-tratos, mas estabelece as bases para relacionamentos pautados na validação mútua e no respeito, rompendo ciclos intergeracionais de insegurança e violência interpessoal.

Referência (ABNT):

KNOX, Laura; KARANTZAS, Gery; FERGUSON, Elizabeth. The Role of Attachment, Insecurity, and Stress in Partner Maltreatment: A Meta-Analysis. Trauma, Violence, & Abuse, v. 25, n. 1, p. 721-737, jan. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/15248380231161012.

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