A performance atlética de elite é reconhecida como um fenótipo complexo, modulado por uma interação intrincada entre fatores ambientais, metodologias de treinamento e predisposição biológica. Estudos de heritabilidade sugerem que as variações genéticas contribuem significativamente para o sucesso esportivo, influenciando variáveis que variam desde a capacidade cardiorrespiratória e a força muscular até a resiliência estrutural dos tecidos conjuntivos. A identificação de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) específicos tem permitido à ciência do esporte mapear os perfis moleculares que favorecem tanto o desempenho em modalidades de resistência (endurance) quanto em atividades que exigem potência explosiva.
No âmbito da performance de resistência, o polimorfismo de inserção/deleção (I/D) do gene da Enzima Conversora de Angiotensina (ACE) permanece como um dos marcadores mais robustos. O alelo I (inserção) está associado a menores níveis plasmáticos de ACE e a uma maior proporção de fibras musculares do tipo I (contração lenta), otimizando a economia de exercício e o consumo máximo de oxigênio (VO2max). Paralelamente, o gene PPARGC1A, que codifica o coativador 1-alfa do receptor gama ativado por proliferador de peroxisoma, desempenha um papel crucial na biogênese mitocondrial. A variante Gly482Ser tem demonstrado que o alelo Gly está correlacionado a uma maior capacidade aeróbica, essencial para ciclistas e maratonistas de alto rendimento.
Em contraste, o desempenho em modalidades de força e velocidade é fortemente influenciado pelo gene ACTN3, que codifica a proteína alfa-actinina-3, presente exclusivamente nas fibras de contração rápida (tipo II). O polimorfismo R577X é determinante: indivíduos com o genótipo RR ou RX possuem a proteína funcional, o que confere vantagem em sprints e levantamento de peso. Por outro lado, a deficiência de ACTN3 (genótipo XX) parece prejudicar o desempenho de elite em atividades de potência, embora possa oferecer uma vantagem marginal em provas de ultra-resistência devido a uma alteração no metabolismo muscular para uma via mais oxidativa.
Além da performance, a genética atua na modulação do risco de lesões musculoesqueléticas, um fator crítico para a longevidade da carreira atlética. Genes que codificam o colágeno, como o COL5A1, estão associados à integridade estrutural de tendões e ligamentos. Variantes específicas no gene COL5A1 têm sido vinculadas a uma maior ou menor incidência de tendinopatias e rupturas do ligamento cruzado anterior (LCA), sugerindo que o perfil genético pode ditar a capacidade de remodelação tecidual sob estresse mecânico. A compreensão dessas variantes permite uma abordagem de treinamento mais personalizada, visando mitigar riscos e maximizar o potencial biológico inerente a cada atleta.
Referência (ABNT):
APPEL, M.; ZENTGRAF, K.; KRÜGER, K.; ALACK, K. Effects of Genetic Variation on Endurance Performance, Muscle Strength, and Injury Susceptibility in Sports: A Systematic Review. Frontiers in Physiology, v. 12, n. 694411, 21 jul. 2021. DOI: 10.3389/fphys.2021.694411.

