Home OpiniãoA Curiosidade Como Catalisador do Aprendizado: Uma Análise Neurobiológica

A Curiosidade Como Catalisador do Aprendizado: Uma Análise Neurobiológica

by Redação CPAH

A motivação intrínseca, como a curiosidade, sempre foi vista como um fator que facilita o aprendizado, mas os mecanismos neurais exatos por trás desse processo permaneciam pouco claros. O estudo “States of Curiosity Modulate Hippocampus-Dependent Learning via the Dopaminergic Circuit” utilizou ressonância magnética funcional (fMRI) para investigar como a curiosidade influencia a memória. Os resultados demonstram que estados de alta curiosidade não apenas melhoram a memória para informações de interesse, mas também para material incidental, sugerindo um elo entre a motivação intrínseca e os circuitos neurais de recompensa.

O experimento consistiu em duas fases:

Fase de triagem: Os participantes classificaram seu nível de curiosidade para aprender as respostas de uma série de perguntas de curiosidades.

Fase de estudo: Dentro de um scanner de fMRI, os participantes viam as perguntas e, durante um período de antecipação pela resposta, eram expostos a uma imagem de rosto neutro.

O estudo encontrou que os participantes se lembravam significativamente mais das respostas para perguntas que geravam alta curiosidade do que para perguntas de baixa curiosidade, replicando descobertas anteriores. Além disso, o estudo revelou que a memória para os rostos incidentais, apresentados durante o período de antecipação, também era melhor quando os participantes estavam em um estado de alta curiosidade. A relevância desse achado é ampliada por um experimento de acompanhamento que confirmou que esses benefícios de memória persistem por até 24 horas.

A análise de fMRI demonstrou que a atividade em regiões-chave do cérebro, como o mesencéfalo (especificamente a área tegmental ventral, VTA, e a substância negra, SN) e o núcleo accumbens, era intensificada durante os estados de alta curiosidade. Essas regiões, que compõem o circuito dopaminérgico mesolímbico, são classicamente associadas à motivação por recompensa extrínseca. A ativação nessas áreas, no entanto, ocorreu durante a antecipação da resposta (quando a curiosidade era suscitada), e não no momento da apresentação da resposta em si, sugerindo que o estado de curiosidade antecipatório é o que modula o aprendizado.

Uma descoberta crucial foi a de que a memória incidental era apoiada pela atividade antecipatória no mesencéfalo e no hipocampo, e por um aumento na conectividade funcional entre essas duas regiões. A variabilidade interindividual na ativação e na conectividade desses circuitos explicou mais da metade da variância comportamental no aprendizado incidental. Isso está em linha com modelos que propõem que a atividade dopaminérgica do VTA pode modular o aprendizado dependente do hipocampo, estimulando a síntese de proteínas e a potenciação de longo prazo (LTP), que são essenciais para a estabilização da memória.

Em conclusão, este estudo fornece fortes evidências de que a curiosidade é um estado motivacional intrínseco poderoso que compartilha mecanismos neurais com a motivação extrínseca por recompensa. Ao ativar o circuito dopaminérgico, a curiosidade prepara o cérebro para o aprendizado, não apenas para o material de interesse, mas também para a informação incidental que o acompanha. Esses achados têm implicações significativas para a educação e a vida profissional, sugerindo que estimular a curiosidade antes da aquisição de conhecimento pode ser uma estratégia eficaz para melhorar o aprendizado e a memória.

Referência:

Gruber, M. J., Gelman, B. D., & Ranganath, C. (2014). States of Curiosity Modulate Hippocampus-Dependent Learning via the Dopaminergic Circuit. Neuron, 84(2), 486–496. DOI: 10.1016/j.neuron.2014.08.060.

related posts

Leave a Comment

19 − 6 =

Translate »