A Complexidade Genética da Performance Atlética: Uma Reavaliação Necessária

O avanço das tecnologias de genotipagem nas últimas décadas fomentou uma busca incessante por marcadores genéticos capazes de prever o sucesso em modalidades de força ou resistência. Tradicionalmente, polimorfismos nos genes ACE (Enzima Conversora de Angiotensina) e ACTN3 (Alfa-actinina-3) têm sido apresentados como pilares da performance biológica, influenciando desde a função cardiovascular até a composição das fibras musculares. No entanto, uma análise rigorosa e abrangente da literatura disponível revela um cenário de controvérsia e falta de consenso, desafiando a premissa de que variantes isoladas possuam valor preditivo substancial no contexto do esporte de elite (PSATHA et al., 2024).

A análise de grandes coortes, que totalizam mais de 54 mil indivíduos entre atletas de endurance, potência e grupos de controle, indica que as associações anteriormente celebradas carecem de significância estatística robusta quando submetidas a critérios de meta-análise rigorosos. Por exemplo, embora o alelo I do gene ACE tenha sido historicamente ligado à resistência e o alelo R do ACTN3 à potência, a evidência atual não sustenta essas associações como preditores universais de sucesso atlético. Essa ausência de correlação estatística significativa sugere que a performance humana é um fenótipo poligênico de extrema complexidade, onde centenas ou milhares de variantes de efeito reduzido interagem entre si e com fatores ambientais (PSATHA et al., 2024).

Diante dessa realidade, torna-se imperativo adotar cautela na aplicação comercial e clínica de testes genéticos para identificação de talentos. A prática de selecionar jovens atletas com base em perfis de DNA isolados é cientificamente arriscada e eticamente questionável, dada a natureza multifatorial do desempenho esportivo. O progresso futuro na área deve se concentrar em abordagens de sequenciamento de nova geração (NGS) e na integração de dados multiômicos, reconhecendo que o sucesso atlético é uma manifestação da plasticidade biológica em resposta ao treinamento, e não apenas um destino escrito no código genético (PSATHA et al., 2024).

Referência (ABNT):

PSATHA, Aikaterini et al. Meta-analysis of genomic variants in power and endurance sports to decode the impact of genomics on athletic performance and success. Human Genomics, v. 18, n. 47, p. 1-8, 2024. DOI: 10.1186/s40246-024-00621-9.

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