Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
Há cenas que, embora silenciosas, revelam mais sobre a neurobiologia do que longas descrições clínicas. Uma delas: um bebê de dois anos, cognitivamente avançado, recusa-se a pisar na terra. Encosta a mão no solo, observa-a atentamente e a mantém suspensa no ar, como se houvesse perdido o vínculo imediato com o próprio corpo. À primeira vista, um capricho comum à infância. Num segundo olhar, uma possível manifestação de processamento sensorial elevado em cérebros precoces.
Esse tipo de comportamento não deve ser tratado como simples aversão momentânea. Quando uma criança com sinais de superdotação evita o contato direto com a terra e reage com estranhamento ao toque, há algo mais sofisticado acontecendo. A suspeita mais plausível é a presença de uma hipersensibilidade tátil, ou seja, uma amplificação na via somatossensorial, geralmente associada ao córtex parietal e às conexões talâmicas envolvidas na modulação do tato.
Crianças com esse perfil neurológico podem perceber estímulos ambientais com uma intensidade desproporcional à média. A terra, que para muitos representa apenas uma textura áspera ou fria, para elas pode ser uma experiência quase invasiva. Nesses casos, o cérebro atua como uma lente de aumento, não como filtro. O resultado não é medo. É sobrecarga.
Mas essa leitura não esgota a questão. O gesto de olhar fixamente para a própria mão, após o contato com a terra, como se ela estivesse “flutuando”, pode conter um elemento simbólico implícito. Crianças precoces tendem a antecipar fases cognitivas. É possível que ali esteja ocorrendo uma forma primitiva de reflexão simbólica. A mão tocou algo externo. Mudou. A criança observa. Busca compreender o que esse contato gerou.
O gesto carrega mais do que estranheza. Ele carrega intenção. Há um tipo de autoanálise que antecede a linguagem verbal. Uma cognição de corpo, uma tentativa rudimentar de associação entre estímulo, transformação e identidade. Em termos neurofuncionais, isso sugere uma ativação não apenas do sistema somatossensorial, mas também de circuitos relacionados à metacognição em formação, como regiões do córtex pré-frontal medial.
A comparação com traços do espectro autista é inevitável, mas imprecisa. Crianças com altas habilidades frequentemente compartilham comportamentos que, fora de contexto, podem ser confundidos com sinais de TEA. A diferença está na funcionalidade. Se a criança mantém vínculos afetivos, troca social, senso de humor e interesse pelo outro, a probabilidade de se tratar de um transtorno se reduz drasticamente. O que se observa é um perfil neuroatípico, mas não patológico.
A criança que observa sua mão após tocar a terra talvez esteja comunicando algo que ainda não sabe expressar por palavras. Algo como: “isso que senti não é banal. Isso me transforma. Preciso entender o que houve aqui.” O adulto que presencia esse gesto precisa mais escutar do que corrigir. Porque a resposta não está no chão que ela evita, mas no modo como ela sente o mundo ao redor.
Em cérebros assim, precocemente organizados para perceber com mais intensidade e associar com mais profundidade, o contato com a terra não é apenas uma sensação. É uma interrogação. E cada interrogação precoce, quando acolhida, pode se tornar uma ponte para uma consciência muito além do esperado para a idade.
Quando a Terra Assusta. O Que Revela Uma Mão Que Flutua?
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