É comum observarmos meninas e mulheres de intelecto brilhante oferecendo respostas impulsivas, lentas ou aparentemente desconexas em conversas cotidianas. A sociedade apressa-se em rotulá-las como desatentas ou, paradoxalmente, menos inteligentes do que realmente são. No entanto, a neurociência nos revela que o que parece ser um “erro de raciocínio” é, na verdade, um sofisticado mecanismo de sobrevivência operando dentro de uma arquitetura cerebral singular.
No Centro de Pesquisa, ao mapearmos a genética de neuroarquitetura de perfis com Dupla Excepcionalidade (Superdotação associada a traços do Espectro Autista), identificamos um padrão estrutural tão específico que propomos chamá-lo de Fenótipo da Assincronia Cortical.
Para entender este fenótipo, precisamos abandonar a ideia de que o cérebro funciona em uma única velocidade. O cérebro neurodivergente de alta performance é uma máquina de contrastes extremos.
Por um lado, essas mulheres possuem um “motor” executivo de altíssima cilindrada. A neurogenética frequentemente revela um volume hipertrofiado no Polo Frontal — a região mais evoluída do cérebro, responsável pelo planejamento complexo e raciocínio abstrato profundo. Somado a isso, elas apresentam uma Inteligência Fluida inata extremamente elevada, o que significa que seus cérebros operam como supercomputadores na identificação de padrões lógicos.
Por que, então, a resposta falha ou demora na hora da prova ou da conversa social? A resposta está nos “cabos de fibra óptica” do cérebro, a substância branca.
O Fenótipo da Assincronia Cortical é caracterizado por um descompasso estrutural: há um poder de processamento frontal massivo, mas um gargalo físico nas vias de tradução e integração. Observamos nesses perfis uma eficiência estrutural reduzida em vias críticas, como a Corona Radiata Posterior — a autoestrada responsável por integrar o que a pessoa vê e escuta (sensório) com a ação física de falar ou escrever (motor).
Ao mesmo tempo, áreas como o Giro Frontal Superior, responsáveis por manter múltiplas “pastas” de contexto abertas simultaneamente na memória de trabalho, podem apresentar volume reduzido.
O resultado diário dessa arquitetura é exaustivo. Quando uma variável nova surge numa conversa, o cérebro da mulher com dupla excepcionalidade não tem a flexibilidade estrutural para criar um novo contexto imediatamente; ele tenta encaixar a nova informação na regra anterior, causando o que os pais chamam de “inversão de raciocínio”.
E sobre as respostas rápidas e aparentemente ilógicas? Elas são pura defesa biológica. Com um Tálamo (o filtro sensorial do cérebro) trabalhando em capacidade extrema, o ambiente social e as pressões da comunicação tornam-se insuportavelmente barulhentos. Para escapar dessa sobrecarga, o cérebro ativa vias de acesso lexical rápido (como o Fascículo Uncinado), disparando a primeira palavra disponível sem passar pelo “inspetor de qualidade” do córtex pré-frontal. A resposta rápida e “errada” não é ignorância; é o cérebro sacrificando a precisão semântica para aliviar a pressão sensorial imediata.
A sociedade mede a inteligência pela velocidade do reflexo e pela articulação instantânea. Mas a neurociência nos alerta: mentes excepcionais não são, necessariamente, mentes sincronizadas. Mulheres com o Fenótipo da Assincronia Cortical não precisam que falemos mais alto ou que cobremos “mais atenção” delas. Elas precisam, neurobiologicamente, da permissão social do tempo. O tempo exato para que a genialidade que repousa no lobo frontal consiga atravessar os gargalos da substância branca e chegar ao mundo real.
O gargalo no tempo de resposta em mulheres com dupla excepcionalidade
A sociedade apressa-se em rotulá-las como desatentas ou, paradoxalmente, menos inteligentes do que realmente são.
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