Fascinação pelo Abismo: Comportamento Juvenil em Situações de Perigo Iminente sob as Lentes da Psicologia

Quando vemos cenas como as da tragédia na Suíça com jovens dentro de um bar em chamas, filmando tudo, rindo, agindo como se estivesse tudo normal, a primeira reação é quase automática: “eles ficaram loucos?”, “ninguém percebeu o risco?”.

Porém, quando entramos no campo da psicologia, percebemos que a história é mais profunda do que um simples “faltou noção”. Não é ignorância literal do perigo. É uma mistura explosiva entre a forma como o cérebro jovem funciona, o peso do grupo e a maneira como a cultura atual nos ensina a olhar para o mundo.

O cérebro adolescente (e também o de muitos jovens adultos) vive uma espécie de descompasso natural: a parte que busca adrenalina, novidade e prazer está no auge, enquanto o sistema que avalia riscos está lá atrás, ainda amadurecendo. Isso faz com que o impulso de “viver intensamente”, de parecer corajoso, de não demonstrar medo, fale muito mais alto do que aquela voz racional dizendo “sai daqui agora”. Pesquisadores como Laurence Steinberg explicam isso há anos, é como se, na hora do perigo, o jovem estivesse dentro de um “nevoeiro psicológico”.

E aí entra um fator enorme: os amigos. A presença de pares mexe no cérebro de um jeito muito particular. Quando tem gente da mesma idade por perto, o sistema de recompensa dispara. De repente, fazer algo arriscado parece valer mais a pena do que se proteger. O medo não desaparece, mas perde feio para a vontade de ser aceito, admirado ou simplesmente de não destoar do grupo. No caso daquele bar, com todos rindo, filmando e fingindo controle, assumir um papel de “tô de boa” virou quase um comportamento esperado.

Existe ainda um aspecto emocional pouco comentado: a dissociação. Às vezes, quando o risco é grande demais, a mente faz o oposto do que esperaríamos. Em vez de pânico, vem uma sensação de anestesia emocional, como se aquilo não estivesse acontecendo de verdade. Rir, filmar, brincar com a situação, tudo isso pode ser, na prática, um mecanismo inconsciente de autoproteção. Uma tentativa desesperada de transformar o pavor em algo suportável.

A cultura digital também pesa muito. Hoje, antes mesmo de sentir, muita gente filma. A câmera cria uma espécie de camada entre a pessoa e o acontecimento, transformando tudo, até uma tragédia, em conteúdo. A experiência vira espetáculo. E isso reduz a intensidade emocional do momento, como se a pessoa se sentisse mais espectadora do que participante daquele perigo. Pesquisadores como Zeynep Tufekci falam sobre essa “mediação digital” que remodela a forma como vivemos a realidade.

Some-se a isso o famoso otimismo irrealista: aquela crença de que coisas ruins acontecem com os outros, nunca com a gente. Isso vale para direção perigosa, álcool, esportes radicais e, sim, para incêndios. A sensação interna é algo como “tá perigoso, mas eu dou conta”.

E, claro, existe a dessensibilização. Hoje somos bombardeados por vídeos de violência, tragédias e caos todos os dias. O cérebro vai criando uma espécie de calo emocional. Coisas que deveriam chocar, já não chocam tanto assim. E, quando um evento real acontece, a reação emocional não acompanha a gravidade da situação.

Quando juntamos tudo isso, não dá para dizer simplesmente que os jovens “perderam o senso de perigo”. O que acontece é que eles processam esse perigo de outra forma: mais devagar, mais confusa, mais influenciada pelo grupo e pela cultura digital. O comportamento que parece absurdo para quem vê de fora é, na verdade, o produto de vários mecanismos psicológicos atuando ao mesmo tempo: busca por pertencimento, ativação exagerada do sistema de recompensa, dissociação, influência da câmera, sensação de invulnerabilidade e dessensibilização.

Entender isso não significa passar pano, mas reconhecer que estamos diante de um fenômeno psicológico complexo — e que precisa ser discutido, especialmente porque essa geração cresce num ambiente emocional e digital completamente diferente do que existia há poucas décadas.

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