Início ColunaNeurociênciasAcurácia Empática e seus Correlatos Neurais: Uma Convergência entre Representações Compartilhadas e Atribuições de Estado Mental

Acurácia Empática e seus Correlatos Neurais: Uma Convergência entre Representações Compartilhadas e Atribuições de Estado Mental

O estudo conduzido por Zaki et al. (2009) representa um avanço nesse campo ao demonstrar, por meio de neuroimagem funcional (fMRI), que a EA depende da atividade em regiões cerebrais tradicionalmente associadas tanto às representações sensorimotoras compartilhadas (SRs) quanto às atribuições cognitivas de estados mentais (MSA).

por Redação CPAH

A compreensão precisa dos estados internos alheios – o que se denomina acurácia empática (EA, do inglês empathic accuracy) – é uma habilidade crucial para a convivência social. No entanto, até recentemente, não havia métodos experimentais robustos que permitissem identificar os substratos neurais que sustentam essa capacidade com base em dados objetivos. O estudo conduzido por Zaki et al. (2009) representa um avanço nesse campo ao demonstrar, por meio de neuroimagem funcional (fMRI), que a EA depende da atividade em regiões cerebrais tradicionalmente associadas tanto às representações sensorimotoras compartilhadas (SRs) quanto às atribuições cognitivas de estados mentais (MSA).

O trabalho emprega um paradigma naturalístico em que participantes assistem a vídeos de alvos relatando experiências emocionais e avaliam, de forma contínua, os estados afetivos desses alvos. A acurácia empática é então definida como a correlação entre as avaliações dos observadores e os relatos introspectivos dos próprios alvos. Esta metodologia permite um vínculo direto entre a atividade neural observada e a precisão empática, superando limitações de estudos anteriores que apenas inferiam estados mentais sem acesso à experiência subjetiva real dos alvos.

Os resultados evidenciam que julgamentos empáticos acurados estão associados à coativação de duas redes neurais distintas. A primeira é o sistema de neurônios-espelho, especialmente o córtex pré-motor dorsal e o lóbulo parietal inferior, regiões envolvidas na simulação de ações e emoções observadas. A segunda rede envolve o sulco temporal superior e o córtex pré-frontal medial (dorsal e rostral), tradicionalmente implicados na inferência dos estados mentais dos outros. A convergência funcional dessas duas redes sustenta a noção de que a empatia acurada depende tanto de processos automáticos de simulação quanto de inferências cognitivas contextualizadas (Zaki et al., 2009).

Curiosamente, regiões frequentemente associadas à empatia afetiva, como a ínsula anterior, o córtex cingulado anterior e o córtex somatossensorial secundário, não demonstraram correlação significativa com a acurácia empática neste estudo. Isso sugere que a ativação dessas áreas pode estar mais relacionada à percepção de estados somatoviscais intensos – como dor ou nojo – do que à interpretação de emoções complexas e naturalísticas, como aquelas expressas verbalmente nos vídeos utilizados.

Outro achado relevante foi a ausência de envolvimento do giro temporo-parietal (TPJ), uma região implicada na detecção de crenças falsas e em processos de reorientação da atenção social. A hipótese dos autores é que, por não haver engano ou desinformação nos relatos dos alvos, a função atribuída ao TPJ não foi requisitada nesse contexto específico.

A implicação central do estudo é que a empatia acurada em contextos realistas requer a integração de diferentes níveis de processamento social: a simulação encarnada dos estados alheios e a inferência interpretativa baseada em contexto. Esta visão integradora contrasta com abordagens reducionistas que priorizam exclusivamente uma das vias, e sugere um modelo mais holístico do funcionamento empático humano.

Para além das implicações teóricas, a metodologia adotada oferece um caminho promissor para investigações clínicas, especialmente em populações com déficits sociais, como indivíduos com transtornos do espectro autista (TEA). Embora alguns desses indivíduos se saiam bem em tarefas simplificadas de teoria da mente, eles continuam apresentando dificuldades nas interações sociais reais. O paradigma de EA, ao capturar nuances mais próximas das demandas sociais cotidianas, pode contribuir para uma avaliação mais ecológica da cognição social e o desenvolvimento de intervenções mais eficazes.

Em síntese, o estudo de Zaki e colaboradores (2009) inaugura uma abordagem metodológica robusta para investigar a acurácia empática, ao mesmo tempo em que propõe uma arquitetura neural funcionalmente integrada para essa habilidade. A empatia acurada não parece ser um produto exclusivo da simulação automática nem da inferência deliberada, mas emerge da colaboração dinâmica entre ambas as redes. Uma observação pessoal: enquanto lia o artigo, notei que esse modelo integrador se alinha intuitivamente à experiência cotidiana de empatia – ora sentimos com o outro, ora pensamos sobre o que o outro sente – e talvez a eficácia da empatia humana derive exatamente dessa plasticidade funcional.

Referência:

ZAKI, J.; WEBER, J.; BOLGER, N.; OCHSNER, K. The neural bases of empathic accuracy. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 106, n. 27, p. 11382–11387, 2009. DOI: 10.1073/pnas.0902666106.

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