Por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Pós-PhD em Neurociências, especialista em Genômica Comportamental e Nutrição Clínica
A proposta de combinar café, Hericium erinaceus (cogumelo juba de leão) e mel como estratégia de otimização cognitiva parece promissora sob o olhar da neurociência aplicada. Porém, é preciso cautela. Estimular o cérebro é diferente de saber quando, quanto e para quem estimular. A neuroquímica humana não é padronizada. Assim como cada impressão digital é única, também o é a resposta cerebral a combinações bioativas.
A seguir, analiso os possíveis efeitos dessa tríade em diferentes perfis neurológicos e psicocomportamentais, com base na minha prática clínica e pesquisa translacional.
1. Superdotados
Indivíduos com QI elevado ou alta complexidade cognitiva já apresentam hiperfuncionalidade em redes como o córtex pré-frontal dorsolateral e a rede default mode (DMN). A combinação analisada pode potencializar a fluência verbal, a memória operacional e a velocidade de processamento. No entanto, há um limite tênue entre eficiência cognitiva e superexcitação mental, que pode gerar efeitos colaterais como fadiga executiva, insônia e hiperatividade ideacional.
“Em cérebros superdotados, o excesso de estímulo pode se tornar sabotagem.”
2. Autistas (TEA)
No autismo, a hiperconectividade local e a hipoconectividade funcional entre redes tornam o cérebro sensível a intervenções excitatórias. O Hericium erinaceus, por estimular o fator de crescimento nervoso (NGF), pode contribuir positivamente em casos com comprometimento sináptico. Já o café pode induzir hiperestimulação sensorial e comportamental, especialmente em autistas com comorbidade ansiosa. O mel pode contribuir com modulação inflamatória benéfica. Contudo, a combinação deve ser avaliada caso a caso, com base em laudo neurofuncional.
3. TDAH
No transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, há disfunção nas vias dopaminérgicas e noradrenérgicas do córtex pré-frontal e estriado. A cafeína, em doses leves, pode melhorar foco em alguns casos; o Hericium contribui para plasticidade de longo prazo. O risco está no uso sem controle: doses elevadas agravam impulsividade e desorganização. A glicose do mel pode auxiliar em tarefas de curta duração, mas há risco de rebote atencional.
“Estímulo mal cronometrado no TDAH é reforço à desregulação.”
4. Transtornos de ansiedade
Pessoas ansiosas apresentam hiperatividade do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal) e maior ativação da amígdala cerebral. O café pode acentuar sintomas como taquicardia, sudorese e inquietação. O Hericium, por outro lado, mostra-se ansiolítico em alguns estudos com roedores, mas sua ação é lenta. A combinação pode gerar paradoxos: melhora cognitiva seguida de estado ansioso.
“Para o ansioso, o cérebro não precisa de mais estímulo, e sim de coerência interna.”
5. Transtornos de personalidade dramática (Cluster B)
Indivíduos com traços borderline, histriônicos ou narcisistas tendem a apresentar disfunções de autorregulação emocional e oscilação entre impulsividade e hiperfoco afetivo. Estímulos externos, como cafeína, amplificam reações emocionais e comportamentais, enquanto o Hericium pode afetar a modulação afetiva em médio prazo. O uso dessa mistura pode reforçar picos emocionais e disforia.
“Estímulos sem contenção emocional são aceleradores de colapso.”
6. Pessoas típicas (neurotípicos)
Para adultos saudáveis, essa tríade pode ser benéfica quando usada com parcimônia: melhora da atenção, memória e motivação em períodos específicos (manhãs, antes de tarefas cognitivas exigentes). Contudo, uso crônico ou excessivo pode induzir tolerância, irritabilidade ou perturbações do sono. A periodização do uso (uso cíclico, com pausas) é recomendada.
7. Crianças
Não há evidência científica suficiente que respalde o uso seguro dessa combinação em crianças. A fase de neurodesenvolvimento exige delicadeza e não aceleração. O NGF, ao ser estimulado artificialmente, pode interferir em rotas naturais de poda sináptica e maturação cortical.
“Estimular um cérebro imaturo é brincar com uma rede elétrica sem fusível.”
Conclusão
Nem tudo que estimula, beneficia. A tríade café + Hericium erinaceus + mel pode ser um recurso eficaz para otimização cognitiva em adultos com perfis controlados, desde que avaliada por critérios nutrigenéticos, neurofuncionais e clínicos. Para outros perfis, especialmente os que envolvem disfunções na modulação afetiva ou neurodesenvolvimento, os riscos podem superar os benefícios.
Estimular o cérebro é uma arte que exige ciência. E ciência sem personalização é sempre imprecisa.