As alterações sensoriais têm se revelado um componente clínico central no transtorno do espectro autista (TEA), não apenas como coadjuvantes sintomatológicos, mas como elementos estruturantes do próprio quadro comportamental desses indivíduos. Segundo Posar e Visconti (2018), essas manifestações incluem padrões de hiporreatividade, hiperreatividade e busca sensorial, além de um possível quarto padrão — a percepção aprimorada —, o que evidencia a complexidade fenotípica dos distúrbios sensoriais no autismo.
Embora essas alterações não sejam exclusivas do TEA, pois também aparecem em condições como deficiência intelectual, sua prevalência e impacto funcional são expressivos em crianças com autismo. Estima-se que a maioria desses indivíduos apresente algum tipo de distúrbio sensorial, frequentemente invisível aos olhos clínicos convencionais devido às limitações comunicativas características do transtorno. Isso, por si só, impõe a necessidade de avaliações formais e regulares da função sensorial como parte indispensável da abordagem neurocomportamental desses pacientes (Posar & Visconti, 2018).
O reconhecimento desses padrões sensoriais não é apenas diagnóstico: ele possui implicações diretas sobre o manejo terapêutico e as estratégias de adaptação ambiental. A resposta atípica a estímulos sensoriais — por exemplo, intolerância a sons específicos, fascínio por luzes giratórias, ou aparente indiferença à dor — pode gerar um ciclo de angústia e desorganização comportamental. Crianças que não conseguem verbalizar o desconforto decorrente de estímulos sensoriais intensos tendem a expressá-lo por meio de agitação, autoagressividade ou retraimento social. Essas reações são, muitas vezes, interpretadas erroneamente como comportamentos disruptivos, quando, na verdade, derivam de um processamento sensorial alterado.
A literatura apresentada pelos autores reforça o papel da integração multissensorial prejudicada como hipótese explicativa relevante para os sintomas nucleares do TEA. Ao invés de déficits isolados em canais sensoriais (como audição ou visão), sugere-se uma falha na conectividade neural de longo alcance, comprometendo a capacidade de combinar estímulos provenientes de múltiplas modalidades sensoriais. Essa disfunção de integração pode ser uma das chaves para entender os desafios na comunicação social e nos comportamentos repetitivos que definem o transtorno (Posar & Visconti, 2018).
Em termos de intervenção, destaca-se a distinção entre abordagens centradas na criança — como a terapia de integração sensorial — e aquelas direcionadas ao ambiente, como o uso de estratégias unissensoriais (bolas terapêuticas, coletes com peso). As primeiras mostraram maior efetividade em ensaios clínicos randomizados, promovendo ganhos em planejamento motor, atenção conjunta e habilidades sociais. Em contrapartida, as abordagens unissensoriais demonstraram resultados limitados em termos de eficácia clínica (Posar & Visconti, 2018).
Há ainda um aspecto reflexivo a considerar: será que as alterações sensoriais devem ser vistas como comorbidades do TEA ou como dimensões centrais do transtorno? Posar e Visconti adotam uma postura prudente, reconhecendo que os dados ainda não permitem uma conclusão definitiva. Contudo, diante da frequência e da intensidade dos efeitos dessas alterações sobre a vida cotidiana dos indivíduos e de suas famílias, parece razoável tratá-las como pilares clínicos relevantes, cuja negligência compromete tanto o diagnóstico quanto a intervenção.
Na prática clínica e na pesquisa, isso implica a urgência de métodos de avaliação que transcendam os relatos parentais e que se esforcem, sempre que possível, por captar a vivência sensorial em primeira pessoa, apesar das limitações comunicativas impostas pelo TEA. Além disso, é preciso continuar investigando as bases neurobiológicas dessas alterações, por meio de técnicas que envolvam genética, neuroimagem funcional e conectividade cerebral, para que intervenções mais precisas e personalizadas possam ser desenvolvidas.
Referência:
POSAR, A.; VISCONTI, P. Alterações sensoriais em crianças com transtorno do espectro do autismo. Jornal de Pediatria (Rio J.), v. 94, n. 4, p. 342–350, 2018. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jped.2017.08.008. Disponível em: https://www.jped.com.br. Acesso em: 20 jun. 2025.