Por: Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
A Interação entre Genes, Trauma e Inflamação
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é frequentemente mal compreendido, mas a ciência moderna revela que ele reside na complexa intersecção entre a biologia e a experiência. Não se trata de uma “escolha” comportamental, mas de uma incapacidade neurobiológica de regular as emoções.
O Peso da Genética e do Ambiente
Estudos de hereditariedade indicam que entre 40% a 60% do risco de desenvolver TPB é genético. No entanto, os genes não são um destino isolado. Eles criam uma vulnerabilidade que, quando combinada com traumas na infância ou estresse ambiental severo, pode desencadear o transtorno. Traumas durante o desenvolvimento cerebral causam alterações duradouras no eixo HPA (sistema de resposta ao estresse) e na síntese de neurotransmissores.
A Bioquímica da Instabilidade
A neurociência do TPB revela marcadores biológicos claros:
Neuroinflamação: Pacientes apresentam níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias (como TNF-α e IL-6). Esse estado inflamatório prejudica a produção de serotonina e do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), essencial para a resiliência neuronal.
Vias Genéticas: Variantes específicas nos genes HTR2C, TPH2, ANKK1/DRD2, OXTR e FKBP5 alteram a forma como o cérebro processa o prazer, a conexão social e o estresse.
Ritmo Circadiano: Há uma forte correlação entre a desregulação do relógio biológico e a impulsividade. O atraso nas fases do sono e a insônia são comuns e agravam a labilidade emocional.
Identificação e Comorbidades
O TPB caracteriza-se por sintomas como o medo intenso do abandono, relacionamentos instáveis, impulsividade e a “cisão” (ver pessoas ou situações como apenas “boas” ou “más”). É comum que o transtorno venha acompanhado de ansiedade, depressão, transtorno bipolar ou abuso de substâncias, o que torna o diagnóstico preciso e o acompanhamento neurocientífico fundamentais.