A pandemia de COVID-19 impôs uma série de desafios à educação superior, entre eles a implementação massiva do ensino a distância (EaD). Para os estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE), essa transição foi ainda mais impactante, exigindo um esforço adaptativo considerável frente a um ambiente de aprendizagem digital que substituiu o contato interpessoal. Nesse contexto, o estudo conduzido por Starynska et al. (2023) oferece uma contribuição significativa ao demonstrar que a inteligência social se constitui como um fator determinante da adaptação psicossocial desses estudantes.
A inteligência social, tal como descrita pelos autores, compreende um conjunto de habilidades cognitivas que envolvem o reconhecimento, análise e interpretação do comportamento humano em contextos sociais. Inclui a capacidade de antecipar reações alheias, compreender expressões verbais e não verbais, e ajustar-se às nuances de diferentes situações comunicativas. Trata-se, portanto, de um constructo que integra conhecimento empírico e competência comportamental, sendo decisivo para o êxito nas interações sociais e, por conseguinte, para a adaptação psicossocial (STARYNSKA et al., 2023).
A pesquisa envolveu 78 estudantes universitários ucranianos com NEE, dentre os quais se observaram predominantemente níveis médios de inteligência social. Apenas cerca de um quarto dos participantes apresentou níveis superiores à média, enquanto uma proporção equivalente demonstrou níveis inferiores. Nenhum dos estudantes obteve pontuações que os classificassem com inteligência social muito baixa ou muito alta. Esses resultados sugerem uma distribuição relativamente equilibrada, mas revelam a necessidade de intervenções que promovam o desenvolvimento dessa competência em maior escala.
No tocante à adaptação psicossocial, os estudantes foram avaliados quanto à sua adaptabilidade (capacidade de ajustar-se às exigências do ambiente social) e à mal-adaptabilidade (indicador de desajuste e sofrimento emocional frente às normas sociais). Observou-se que a maioria (quase dois terços) apresentou níveis médios em ambos os domínios, enquanto cerca de um terço se destacou com níveis elevados. Importante salientar que não foram identificados casos de baixa adaptabilidade ou mal-adaptabilidade, o que pode refletir uma resiliência moderada desses estudantes frente aos desafios do EaD.
A análise estatística revelou correlações significativas entre inteligência social e adaptação psicossocial: uma relação positiva com a adaptabilidade (r = 0,38, p < 0,01) e uma relação inversa com a mal-adaptabilidade (r = -0,20, p < 0,05). Em outras palavras, quanto maior o nível de inteligência social, maior a capacidade de adaptação dos estudantes ao novo contexto educacional, e menor a sua tendência ao desajuste emocional. Essa constatação reforça a tese de que a inteligência social atua como um fator protetor em contextos adversos, como o isolamento social e a virtualização do ensino (STARYNSKA et al., 2023).
A meu ver, esse estudo toca em um ponto crítico frequentemente negligenciado nas políticas de inclusão: o papel das habilidades socioemocionais na promoção de uma verdadeira equidade educacional. Investir no desenvolvimento da inteligência social não apenas favorece a integração dos estudantes com NEE, mas também pode ser um vetor de transformação na forma como concebemos a acessibilidade em ambientes digitais. Notei, ao revisitar recentes publicações em psicologia educacional, uma tendência crescente a considerar essas competências como componentes centrais do currículo inclusivo — algo que este estudo corrobora com dados empíricos robustos.
Em suma, os achados de Starynska et al. (2023) evidenciam que a inteligência social não é apenas um atributo desejável, mas um pré-requisito para a adaptação eficaz de estudantes com necessidades educacionais especiais em contextos de ensino remoto. A promoção dessa competência deve, portanto, ser integrada a estratégias institucionais voltadas à inclusão e ao suporte psicopedagógico no ensino superior.
Referência:
STARYNSKA, O.; SPIVAK, L.; OSMANOVA, A.; REVUTSKA, O. Social Intelligence as a Factor of Socio-Psychological Adaptation of University Students with Special Educational Needs during Distance Learning due to the COVID-19. Revista Românească pentru Educaţie Multidimensională, v. 15, n. 1, p. 441-462, 2023. DOI: 10.18662/rrem/15.1/705.