Por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, Bioinformático e Neurocientista Especializado em Genômica Funcional
A hérnia de disco lombar continua sendo uma das principais causas de dor nas costas e ciática em adultos, afetando milhões de pessoas em todo o mundo e frequentemente levando a limitações significativas na mobilidade e qualidade de vida. Embora o desgaste mecânico, o envelhecimento, o sedentarismo e traumas repetitivos sejam fatores bem conhecidos, pesquisas genéticas recentes destacam um componente hereditário importante nessa condição. Genes envolvidos na estrutura do tecido conjuntivo, como o COL11A1, que codifica a cadeia alfa-1 do colágeno tipo XI, desempenham um papel crucial na manutenção da integridade da matriz extracelular dos discos intervertebrais. Variantes específicas nesse gene, como o rs1676486, têm sido associadas em estudos com populações chinesas, japonesas e outras a um risco aumentado de degeneração discal e hérnia lombar. Por exemplo, o alelo T dessa variante pode reduzir a estabilidade do mRNA e a expressão proteica, resultando em discos mais frágeis e propensos a protrusão ou ruptura, o que interage com fatores ambientais para amplificar o processo degenerativo e o mecanismo de defesa muscular conhecido como “travar” ou espasmo protetor.
Do ponto de vista neurocientífico, a percepção da dor nessa condição não depende apenas da compressão mecânica do nervo, mas também de mecanismos moleculares que modulam a transmissão nociceptiva no sistema nervoso periférico. O gene SCN9A, responsável pela codificação do canal de sódio voltage-gated Nav1.7 expresso em neurônios sensoriais, é particularmente relevante. Variantes como o rs6746030 têm sido ligadas a uma maior intensidade de dor em pacientes com hérnia discal sintomática, incluindo lombociatalgia crônica. O alelo menor A dessa variante parece aumentar a atividade do canal, levando a uma maior excitabilidade neuronal e, consequentemente, a uma amplificação da percepção de dor em resposta a estímulos como inflamação ou compressão radicular. Estudos em coortes de pacientes com hérnia discal, osteoartrite e outras condições dolorosas confirmam que portadores dessa variante relatam escores de dor mais elevados, ilustrando como variações genéticas sutis podem transformar uma lesão estrutural em uma experiência dolorosa mais intensa e persistente.
Na área da farmacogenética, que investiga como o genoma individual influencia a resposta a medicamentos, o gene CYP2C9 surge como elemento central no metabolismo de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) comuns, como ibuprofeno, celecoxib e outros. Variantes como 2 (rs1799853) e 3 (rs1057910) reduzem a atividade enzimática hepática em graus variáveis, classificando indivíduos como metabolizadores intermediários ou pobres. Nesses casos, o fármaco acumula no plasma, prolongando sua meia-vida e elevando o risco de efeitos adversos, incluindo toxicidade gastrointestinal como irritação mucosa, úlceras ou sangramento, o que pode ser especialmente problemático em pessoas com histórico de problemas estomacais, como gastroparesia. Diretrizes do Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (CPIC), atualizadas com base em evidências robustas, recomendam ajustes de dose ou preferência por alternativas em metabolizadores reduzidos para minimizar esses riscos.
A integração desses conhecimentos destaca o potencial da medicina personalizada: testes genéticos podem identificar predisposições a degeneração discal, hipersensibilidade à dor e respostas alteradas a analgésicos, permitindo abordagens mais precisas no manejo. No entanto, esses dados genéticos são apenas uma peça do quebra-cabeça, que deve ser interpretada no contexto clínico completo, incluindo exames de imagem, sintomas atuais e comorbidades. A ciência avança para tornar o tratamento da dor lombar mais individualizado, mas o passo essencial permanece o mesmo: consultar profissionais de saúde qualificados, como médicos, ortopedistas, neurologistas ou geneticistas, que podem integrar essas informações científicas à decisão terapêutica segura e eficaz.
Este texto resume conceitos gerais extraídos de literatura científica pública e não constitui conselho médico, diagnóstico ou recomendação de tratamento. Qualquer questão relacionada à saúde pessoal deve ser discutida exclusivamente com um profissional habilitado, que avaliará o caso de forma individualizada.
A Genética da Dor e da Degeneração: Uma Visão Bioinformática e Neurocientífica sobre Hérnia de Disco
A hérnia de disco lombar continua sendo uma das principais causas de dor nas costas e ciática em adultos, afetando milhões de pessoas em todo o mundo e frequentemente levando a limitações significativas na mobilidade e qualidade de vida.
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