A Complexidade do Comportamento Evitativo e a Autossabotagem em Pessoas Autistas: Uma Reflexão


Por Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

O comportamento de indivíduos que, ao receberem elogios, reagem com autossabotagem e uma aparente postura de superioridade é um fenômeno psicologicamente interessante, especialmente quando observado em pessoas com traços evitativos ou no espectro autista. Esse padrão, frequentemente confundido com traços narcisistas, reflete uma interação complexa entre fatores neurobiológicos, psicológicos e sociais.

Neste artigo, analiso as nuances desse comportamento em indivíduos evitativos, com ênfase em sua manifestação em autistas, destacando como ele pode ser mal interpretado como narcisismo e os desafios enfrentados em um mundo socialmente exigente.

O Perfil Evitativo e a Reação aos Elogios
Pessoas com traços evitativos, sejam diagnosticadas com transtorno de personalidade evitativa ou com tendências de esquiva, caracterizam-se por insegurança, medo de rejeição e hipersensibilidade à crítica.

Para elas, elogios podem ser paradoxais: oferecem validação, mas também geram ansiedade por expectativas de desempenho. Essa tensão frequentemente leva à autossabotagem, como evitar desafios ou se retrair socialmente, e, em alguns casos, a uma postura que parece arrogante, confundida com traços narcisistas.

No entanto, ao contrário do narcisismo, que busca elogios para reforçar a grandiosidade, essa reação é uma defesa para mascarar inseguranças.

Neurobiologicamente, sub-regiões como o córtex pré-frontal (ligado ao foco, atenção e regulação emocional), o núcleo accumbens (associado à curiosidade e motivação por recompensas) e o hipocampo (essencial para memória e aprendizado) podem apresentar funcionamento atípico, dificultando o processamento de feedback positivo. A neuroplasticidade, moldada por experiências, pode reforçar essa resposta defensiva se a pessoa aprendeu a desconfiar de elogios ou temer a exposição.

Autismo e a Sobreposição com Traços Evitativos

No espectro autista, esse comportamento ganha maior complexidade. Autistas frequentemente enfrentam dificuldades na regulação emocional e na interpretação de pistas sociais, o que pode intensificar traços evitativos. A sensibilidade sensorial, comum no autismo, pode transformar elogios em sobrecarga, especialmente em contextos sociais intensos, desencadeando respostas defensivas. Regiões como o córtex parietal (responsável pela integração sensorial e atenção) e o hipocampo podem funcionar de maneira distinta, dificultando a assimilação de feedback positivo.

A aparente “superioridade” em autistas após elogios pode ser uma tentativa de controlar interações sociais imprevisíveis ou de proteger uma autoestima frágil, além de não saber lidar com isso. Por exemplo, um comentário que soa arrogante pode ser uma forma de desviar a atenção de vulnerabilidades ou evitar perguntas adicionais.

Esse comportamento, embora semelhante ao narcisismo à primeira vista, não reflete uma busca por admiração, mas uma estratégia de enfrentamento em um mundo que muitas vezes parece hostil ou confuso.
Essas pessoas podem ser vistas como arrogantes ou sem humildade por muitas vezes.

A Confusão com Traços Narcisistas

A semelhança superficial entre o comportamento evitativo e traços narcisistas pode levar a mal-entendidos. Enquanto o narcisismo é marcado por uma autoimagem inflada e busca constante por validação, a “superioridade” em pessoas evitativas ou autistas é uma fachada compensatória, não uma convicção genuína de grandiosidade.

A autossabotagem, comum em ambos os casos, surge por motivos distintos: no narcisismo, pode ser uma reação à crítica; em evitativos e autistas, é uma fuga à pressão de expectativas. Reconhecer essa distinção é crucial para evitar estigmas e oferecer suporte adequado.

A Interseção entre Evitação, Autismo e Autossabotagem

A autossabotagem em pessoas evitativas, incluindo autistas, manifesta-se de formas variadas: recusar oportunidades por medo de falhar, isolar-se após elogios ou adotar uma postura defensiva que aliena os outros. Em autistas, isso é agravado por dificuldades em interpretar intenções sociais e pela tendência a hiperfocar em detalhes, o que pode levar a mal-entendidos. Um elogio sobre uma habilidade pode ser percebido como uma expectativa inatingível, desencadeando retraimento ou uma máscara de superioridade para evitar exposição. A sociedade, por desconhecimento, pode interpretar isso como narcisismo, ignorando o contexto interno de ansiedade e insegurança.

Como Abordar com Empatia

Compreender esse comportamento exige empatia e uma abordagem adaptada. Para pessoas evitativas e autistas, elogios devem ser específicos, genuínos e livres de expectativas implícitas. Por exemplo, dizer “Gostei do seu esforço nesse projeto” é menos pressionante que “Você é brilhante!”. Além disso, criar ambientes acolhedores, com regras claras e menos estímulos sociais intensos, pode reduzir a necessidade de defesas compensatórias.
Estratégias como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), adaptada para autistas, podem ajudar a reconhecer padrões de autossabotagem e construir confiança genuína. Educar a sociedade sobre as diferenças entre traços evitativos, autismo e narcisismo é igualmente essencial para reduzir estigmas e promover inclusão.

O comportamento de autossabotagem e aparente superioridade em pessoas evitativas, especialmente autistas, é um reflexo de lutas internas que não devem ser confundidas com traços narcisistas. Envolve a interação de sub-regiões cerebrais como o córtex pré-frontal, núcleo accumbens, hipocampo e córtex parietal, moldadas pela neuroplasticidade e por experiências sociais. Para apoiar esses indivíduos, precisamos oferecer compreensão, ambientes seguros e estratégias personalizadas que respeitem suas particularidades. Assim, podemos ajudá-los a transformar a autossabotagem em crescimento, permitindo que seu potencial floresça sem o peso do medo ou da incompreensão.

Nota: Esta reflexão é geral e não substitui avaliações clínicas. Cada pessoa é única, e abordagens individualizadas são fundamentais.

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