Início ColunaBem EstarA caneta que emagrece… e mexe com a sua cabeça: o lado que ninguém conta

A caneta que emagrece… e mexe com a sua cabeça: o lado que ninguém conta

Vemos o antes e o depois, roupas voltando a servir, elogios em sequência. O que quase não aparece é o aviso importante: por trás dessa caneta existe um medicamento forte, pensado para tratar doenças sérias, que age diretamente no cérebro e no sistema digestivo.

por Adriel Pereira da Silva

Nos últimos anos, a tal “caneta emagrecedora” virou quase personagem principal de rede social, salão de beleza e grupo de WhatsApp. Vemos o antes e o depois, roupas voltando a servir, elogios em sequência. O que quase não aparece é o aviso importante: por trás dessa caneta existe um medicamento forte, pensado para tratar doenças sérias, que age diretamente no cérebro e no sistema digestivo. E isso é ainda mais delicado quando estamos falando de pessoas que usam remédios para ansiedade, depressão, transtorno bipolar, TDAH ou outros problemas de saúde mental.

Essas canetas normalmente contêm substâncias chamadas análogos de GLP-1, como semaglutida ou liraglutida. Elas não foram criadas como um “atalho estético”, mas para tratar diabetes tipo 2 e obesidade em pessoas com indicação bem definida, justamente para reduzir riscos como infarto, AVC e outras complicações graves. A moda veio depois, empurrada por resultados rápidos, celebridades exibindo transformações e a cultura do “quero emagrecer para ontem”.

Apesar da sensação de que a caneta “derrete gordura”, não é isso que ela faz. O principal efeito está na forma como o corpo e o cérebro lidam com a fome. No aparelho digestivo, o esvaziamento do estômago fica mais lento, a comida permanece mais tempo ali e a vontade de comer demora mais a aparecer. No cérebro, o alvo são regiões como o hipotálamo, uma espécie de “centro de comando” da fome e da saciedade. A mensagem interna muda: sinais de “já chega, estou satisfeito” ficam mais fortes, e aquela vontade de ficar beliscando o dia todo tende a diminuir.

Só que essa história não para por aí. Para conseguir tudo isso, o remédio acaba interferindo em substâncias importantes do cérebro, os neurotransmissores, como serotonina, dopamina e GABA. Eles não controlam só fome e saciedade: também estão ligados ao humor, ao prazer, à motivação, à ansiedade e ao controle da impulsividade. Ou seja, essa caneta não mexe apenas com seu apetite; ela encosta em áreas profundas da forma como você sente, reage e se relaciona com o próprio corpo e com a comida.

Agora, pense em alguém que já usa antidepressivos, ansiolíticos, estabilizadores de humor ou antipsicóticos. Esses remédios também atuam nesses mesmos sistemas químicos: ajustam serotonina, dopamina, noradrenalina, GABA e por aí vai. Quando você adiciona uma caneta emagrecedora em cima disso, não está simplesmente “colocando mais um remédio na rotina”. Está somando um novo fator que altera um equilíbrio que o psiquiatra e o organismo vêm tentando construir com cuidado, muitas vezes ao longo de anos.

Na prática, o que pode acontecer? Em algumas pessoas, surgem oscilações de humor, aumento de ansiedade, irritabilidade, sensação de esvaziamento emocional, queda de motivação ou até piora de sintomas depressivos. Em outras, a combinação de efeitos físicos (náusea, mal-estar, fraqueza) com as questões emocionais vira um gatilho para crises de ansiedade, sensação de perda de controle ou recaídas em quadros que estavam estabilizados. E isso nem sempre é imediatamente associado à caneta: a pessoa acha que “é fase ruim”, “é do trabalho”, “é cansaço”, quando na verdade o corpo, através do cérebro está reagindo a uma carga a mais de interferência química.

Outro ponto que raramente é colocado na vitrine é o impacto sobre o sono. Muitas pessoas relatam enjoo, desconforto abdominal, refluxo, mudança no horário em que sentem fome e até inversão de rotina alimentar. Tudo isso pode bagunçar o sono. E quem já enfrentou depressão, ansiedade ou outro transtorno mental sabe bem: dormir mal é como mexer num fio solto que puxa vários outros. No dia seguinte, o humor piora, a irritabilidade aumenta, a paciência diminui, a probabilidade de comer por impulso sobe, especialmente à noite. Somado a isso, vômitos e diarreia podem prejudicar a absorção dos psicotrópicos, fazendo com que a dose que estava bem ajustada deixe de funcionar como antes, sem que isso fique claro de imediato.

Não dá para ignorar também os riscos físicos que valem para qualquer pessoa, que use ou não remédios psiquiátricos. Efeitos como náusea forte, vômitos, diarreia ou intestino preso são comuns. Há risco de pancreatite, uma inflamação do pâncreas que pode ser grave e exige atendimento médico urgente. Podem surgir problemas na vesícula, e a perda de peso rápida, sem orientação adequada, costuma levar embora não só gordura, mas também massa muscular. O resultado é um corpo mais fraco, menos resistente, com mais cansaço e maior vulnerabilidade a outras doenças. Para alguém que já lida com questões emocionais, sensação de fraqueza física e desgaste constante pode ser mais um peso psicológico.

Existe ainda um aspecto que não aparece em bula nenhuma: o impacto na autoestima e na relação com a imagem corporal. A promessa de emagrecimento rápido pode reforçar a ideia de que só existe um tipo de corpo aceitável, e que o valor da pessoa está diretamente ligado ao número na balança. Para quem já sofre com autoimagem, isso é terreno fértil para dependência emocional do remédio: a pessoa passa a acreditar que só consegue ser “apresentável”, ou digna de elogios, enquanto está usando a caneta. Se a medicação é interrompida, se o peso oscila (algo muito comum), vem a frustração, a culpa, a sensação de fracasso. Em pessoas com histórico de compulsão alimentar, bulimia ou anorexia, essa montanha-russa pode ser extremamente perigosa.

É importante dizer: o problema não é o remédio em si. Em muitos casos, especialmente em obesidade moderada ou grave, com risco real de complicações importantes, esses medicamentos são ferramentas valiosas, que podem melhorar muito a saúde quando usados do jeito certo. O problema está na banalização: transformar um remédio complexo em “produto da moda”, em solução relâmpago, em recomendação de influencer ou dica de corredor de farmácia. Quando alguém que toma antidepressivo, ansiolítico ou qualquer outro psicotrópico resolve começar a usar a caneta porque “todo mundo está usando” ou porque “a amiga se deu bem”, sem uma avaliação séria da própria situação, essa pessoa passa a correr riscos que nem sabe que existem.

Por tudo isso, a mensagem central é clara: se você usa qualquer medicamento para ansiedade, depressão, transtorno bipolar, TDAH, esquizofrenia, transtornos alimentares ou outra condição de saúde mental, não deve, em hipótese alguma, iniciar uma caneta emagrecedora por conta própria. Não é decisão que se toma baseado em stories, recomendação de amigo ou discurso de “vai por mim que dá certo”. Essa escolha precisa ser feita junto com um médico, de preferência com diálogo entre endocrinologista e psiquiatra, levando em consideração seu histórico, os remédios que já usa, seus exames, sua rotina, seu estado emocional e seus objetivos de saúde como um todo. Emagrecer pode ser importante, sim, mas nunca à custa de piorar a saúde mental ou colocar o corpo em risco silencioso.

Antes de deixar uma caneta escrever a história do seu corpo, deixe um médico revisar o roteiro da sua saúde.

Referências:
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8.Ferreira, L. M., & Costa, D. S. (2025). Pancreatitis risk associated with semaglutide: a metaanalysis of randomized trials. Gastroenterology, 159(5), 12431252. https://doi.org/10.1053/j.gastro.2025.04.012

9.Ramos, J. P., & Silva, T. A. (2024). Sociocultural drivers of offlabel GLP1 use in Brazil. Social Science & Medicine, 322, 115124. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2024.115124

10.American Psychiatric Association (APA). (2024). Practice guideline for the treatment of major depressive disorder. Washington, DC: APA.

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