1. A Falácia da Fragilidade e o Custo do Sedentarismo
A restrição histórica de crianças a ambientes de treinamento estruturado (academias) baseou-se em uma “proteção” sem lastro científico. Enquanto a sociedade temia lesões epifisárias inexistentes em programas supervisionados, negligenciou o risco real: o declínio secular da aptidão muscular. A ciência moderna (Stricker et al., 2020) inverte o ônus da prova: o risco não está na prática, mas na omissão. O treinamento de força (TF) não é uma opção estética; é um pré-requisito biológico para o crescimento saudável.
2. O Triângulo de Ouro: Fisiologia, Epigenética e Neuroplasticidade
A robustez do exercício estruturado a partir dos 6 anos sustenta-se em três pilares biológicos inegociáveis:
Vantagem Neuromuscular Precoce: Na fase pré-púbere, o sistema nervoso central possui uma plasticidade única. O TF explora a “janela de oportunidade” para o refinamento da coordenação intermuscular e recrutamento de unidades motoras (Sánchez Pastor et al., 2023). Negar esse estímulo é privar a criança de uma alfabetização motora que será a base de sua competência física vitalícia.
A “Polipílula” Metabólica: A combinação de estímulos aeróbicos e resistidos (treinamento concorrente) atua na raiz das doenças crônicas não transmissíveis. Intervenções escolares e em academias demonstram que o TF é superior na modulação do perfil glicêmico e na redução da gordura visceral, agindo como uma intervenção de precisão contra a obesidade infantil (Chen et al., 2021; Wang et al., 2025).
O Legado Epigenético: O exercício não muda apenas o músculo; ele altera a expressão gênica. A liberação de miocinas durante o esforço resistido induz modificações epigenéticas (metilação e acetilação) que otimizam a saúde cerebral e a resiliência cognitiva, “programando” o indivíduo para um envelhecimento bem-sucedido desde a primeira década de vida (Kukla-Bartoszek & Głombik, 2024).
3. Diretrizes Pediátricas: O Protocolo da Excelência
As diretrizes da OMS e da American Academy of Pediatrics (AAP) são explícitas e devem ser transpostas para a legislação e normas de funcionamento de academias:
Volume e Intensidade: O “padrão ouro” para saúde pediátrica é de 60 minutos diários de atividade moderada a vigorosa.
O Componente de Força: É imperativo que 3 desses dias incluam atividades de fortalecimento muscular e ósseo.
Estrutura de Treino: 1 a 3 séries de 8 a 15 repetições, com progressão baseada estritamente na competência técnica, utilizando desde o peso corporal até resistências externas (halteres e máquinas adaptadas).
4. Argumentação para Reguladores e Gestores Públicos
A abertura de academias públicas e privadas para o público infantil deve ser encarada como uma estratégia de alta eficiência econômica.
Redução de Custo em Saúde: Uma criança fisicamente ativa e muscularmente apta demanda menos do sistema de saúde ao longo da vida, com menor incidência de lesões ortopédicas e doenças metabólicas.
Segurança Comparativa: Academias oferecem um ambiente supervisionado e controlável, superior à imprevisibilidade de parques públicos. Sob supervisão de profissionais de Educação Física capacitados, o risco de lesão é estatisticamente desprezível frente ao benefício sistêmico.
Democratização do Desenvolvimento: A política pública deve assegurar que o TF não seja um privilégio de atletas de elite, mas um direito de toda criança para o desenvolvimento de sua saúde óssea e metabólica.
5. Conclusão: Um Imperativo Ético
Manter regulamentações que limitam o acesso de crianças às academias com base em mitos de crescimento é um anacronismo perigoso. A evidência científica atual (Lesinski et al., 2020; Villa-González et al., 2022) exige uma reforma nas políticas sociais e esportivas. A academia deve ser integrada como um braço do sistema de saúde pediátrica, um laboratório de desenvolvimento humano onde o potencial biológico da criança é estimulado de forma segura, técnica e científica.
Referências Bibliográficas
1.Chen, T., Lin, J., Lin, Y., Xu, L., Lu, D., Li, F., Hou, L., & Yu, C. C. W. (2021). Effects of aerobic exercise and resistance exercise on physical indexes and cardiovascular risk factors in obese and overweight school-age children: A systematic review and meta-analysis. PLOS ONE, 16(9), e0257150. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0257150
2.Kukla-Bartoszek, M., & Głombik, K. (2024). Train and reprogram your brain: Effects of physical exercise at different stages of life on brain functions saved in epigenetic modifications. International Journal of Molecular Sciences, 25(22), 12043. https://doi.org/10.3390/ijms252212043
3.Lesinski, M., Herz, M., Schmelcher, A., & Granacher, U. (2020). Effects of resistance training on physical fitness in healthy children and adolescents: An umbrella review. Sports Medicine, 50(11), 1901–1928. https://doi.org/10.1007/s40279-020-01327-3
4.Sánchez Pastor, A., García-Sánchez, C., Marquina Nieto, M., & de la Rubia, A. (2023). Influence of strength training variables on neuromuscular and morphological adaptations in prepubertal children: A systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, 20(6), 4833. https://doi.org/10.3390/ijerph20064833
5.Stricker, P. R., Faigenbaum, A. D., McCambridge, T. M., LaBella, C. R., Brooks, M. A., Canty, G., Diamond, A. B., Hennrikus, W., Logan, K., Moffatt, K., Nemeth, B. A., Pengel, K. B., & Peterson, A. R. (2020). Resistance training for children and adolescents. Pediatrics, 145(6), e20201011. https://doi.org/10.1542/peds.2020-1011
6.Villa-González, E., Barranco-Ruiz, Y., García-Hermoso, A., & Faigenbaum, A. D. (2023). Efficacy of school-based interventions for improving muscular fitness outcomes in children: A systematic review and meta-analysis. European Journal of Sport Science, 23(3), 444–459. https://doi.org/10.1080/17461391.2022.2029578
7.Wang, N., Wang, Q., Wang, M., & Abdul Rahman, M. N. B. (2025). Effect of physical activity on anthropometric and physiological parameters in preschool and school-aged children: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Frontiers in Public Health, 13, 1592098. https://doi.org/10.3389/fpubh.2025.1592098
Dr. Rafael Marchetti, Cardiologista e Médico do Exercício e Esporte, Pós-Graduação em Neurociência do Comportamento e Alta Performance.